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Cebolas roxas: Transformadas Pela Beleza

Eu estava na beira da composteira com duas cebolas roxas recém-colhidas, lavando a terra das cascas. Naquele momento, minha mente estava repleta de pensamentos desagradáveis, sentindo-me injustiçada em uma situação específica, repassando mentalmente como havia sido injustiçada. Não tinha certeza para quem eu estava apresentando meu argumento. Certamente não para as cebolas roxas.

Ao remover a camada externa de uma delas, o sol captou seu tom avermelhado, iluminando-a como um rubi, e eu fiquei boquiaberto com sua beleza estonteante. Meus pensamentos se aquietaram, e o brilho vermelho me envolveu em gratidão e admiração.

De repente, me senti tola por aquilo que agora me parecia uma preocupação insignificante. Ali estava eu, cercada de beleza, mas sem estar receptiva a ela, deixando-me afundar em pensamentos que não eram sobre o agora, que não me ajudavam e que me impediam de estar presente.

Um momento de graça me tirou daquele estado e me mostrou outra possibilidade, mostrou mais uma vez que a escolha que faço com meus pensamentos faz toda a diferença no meu mundo. Eu estava mal-humorada e sombria e, de repente, fui transformada pela beleza.

Gostaria de dizer que essa percepção transformou meu comportamento mental e que, desde então, deixei de ter pensamentos irritadiços, buscando, em vez disso, encontrar beleza e me emocionar com ela. Mas não é o caso. As cebolas roxas, no entanto, continuam sendo uma mestra nesse aspecto.

No inverno, ao retirar uma cebola do local onde ficam armazenadas durante os longos meses frios, fui novamente surpreendido pela cor vermelha intensa e vibrante da casca seca, cujos padrões se revelavam como desenhos geométricos de vitral. Essa experiência me lembrou a anterior, na composteira. Desta vez, eu não estava mergulhado em mau humor, eu simplesmente não estava presente. Onde minha mente estava quando, de repente, aquele vermelho púrpura profundo e luminoso a trouxe para o agora? O agora era pleno, rico, vibrante. Aquele outro lugar? Nem sei.

Ao arrancar uma cebola roxa da terra, descascando a casca externa dura e incrustada de terra, vejo uma camada branca colada ao vermelho escuro. A cor escura por trás da camada clara revela uma rede de padrões, semelhante a uma alvenaria, às células da pele vistas ao microscópio, às camadas da casca interna de uma árvore. Mais uma vez, sou cativado pela beleza e pela maravilha dos padrões da Natureza.

Isso me leva a um passeio pelo jardim com a intenção deliberada de procurar beleza. E a encontro em todos os lugares. Uma flor de abóbora radiante, de um amarelo tão intenso que parece ter luz dentro das pétalas, encanta a mim e também a abelha que se agita alegremente lá dentro, zumbindo de prazer. A luz que atravessa as folhas do repolho revela padrões de nervuras que lembram os galhos das árvores no inverno. Folhas de cenoura, parecidas com samambaias, tremulam levemente numa brisa quase imperceptível, uma dança delicada. Beleza por toda parte.

pensamentos em mente

Lembro-me de parte de um poema da tribo Navajo e agora o compreendo de uma nova maneira.

Que eu possa caminhar com beleza.

Que eu possa caminhar com tanta beleza diante de mim.

Com a beleza atrás de mim, que eu possa caminhar.

Que eu possa caminhar com a beleza acima de mim.

Que eu possa caminhar com tanta beleza ao meu redor.

Na velhice, vagando por uma trilha de beleza, cheio de vida, que eu possa caminhar.

Na velhice, vagando por uma trilha de beleza, vivendo novamente, que eu possa caminhar.

Está finalizado com perfeição.

Está finalizado com perfeição.

Qual é o mistério da beleza? Como explicá-la? É mais do que uma questão de perspectiva, estando nos olhos de quem vê. Simone Weil observou: “Em tudo que nos proporciona a sensação pura e autêntica de beleza, existe realmente a presença de Deus. Há, por assim dizer, uma encarnação de Deus no mundo, e isso se manifesta na beleza. O belo é a prova experimental de que essa encarnação é possível.”

Essa beleza – a forma como provoca um suspiro de admiração, interrompe os pensamentos e me traz alegria no momento presente – me faz pensar que esse é grande parte do impulso artístico. Há um desejo de capturar e compartilhar o deslumbramento vivenciado, de também criar algo que proporcione o momento de reflexão, absorção, reconhecimento de padrões, camadas e significados.

A beleza tem, de fato, o poder de transformar. As cebolas roxas já não são as mesmas – são portais para a admiração, a lembrança, o deslumbramento e a gratidão. No jardim, parece fácil encontrar beleza, mas também estou aprendendo que ela está em toda parte.

Posso direcionar minha mente, concentrar minha atenção, para encontrá-lo?

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COMMUNITY REFLECTIONS

2 PAST RESPONSES

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Kristin Pedemonti Jun 1, 2017

I needed this reminder in the seemingly small beauties all around us. Thank you! I was mesmerized yesterday by moss on trees during a short hike in a national forest in Washington State. Wow, just gorgeous!

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Virginia Reeves May 29, 2017

This message is lyrical in it's simplicity and reminder of how beauty is in nearly anything you look at - when you choose to see it. Thanks for sharing these images Alanda and the nudge to be more aware of the greatness around us.