É uma metáfora simples, porém profunda, que uma mentora da minha mãe, da época em que ela era criança, compartilhou com ela décadas atrás: "Quando um pé caminha, o outro descansa". É assim que toda a natureza funciona, um belo lembrete de que tudo está em fluxo e refluxo, envolvido em ciclos e ritmos.
Nossos próprios corpos seguem padrões naturais, recuperando-se todas as noites e preparando-se para as atividades do dia seguinte. Com a música também, a estrutura imposta pelas notas depende inerentemente do espaço não estruturado que a sustenta. As notas e o espaço entre elas se unem para criar a música.
Como cultura, porém, damos mais importância à criação de notas e relativamente pouca ao espaço entre elas. Entre a criação e o ser, a ênfase recai sobre a criação. Curiosamente, o músico John Cage considerava sua peça mais importante "4'33"", na qual um músico não toca nota alguma, dando destaque aos sons naturais do ambiente. Sua ideia era que "Não existe espaço vazio ou tempo vazio. Há sempre algo para ver, algo para ouvir."
É claro que nosso viés social é compreensível. A criação geralmente se manifesta de forma externa e mensurável, tornando-se uma base conveniente para a organização interpessoal — para comunicação, comparação e diferenciação. A desvantagem, porém, é que começamos a perder valores sutis. Até mesmo um ícone da criatividade em nossa época, Albert Einstein, nos lembra da limitação dessa abordagem: "Nem tudo que pode ser contado conta; nem tudo que conta pode ser contado."
Nossa mente racional busca garantir o progresso, mas nossa mente intuitiva precisa de espaço para que o emergente, o desconhecido e o não planejado surjam. Dentro do paradigma vigente, o externo vem em primeiro lugar, o interno fica em segundo plano e, em deferência à mensurabilidade, nos tornamos mais sintonizados com o fazer do que com o ser.
O problema não está no ato de fazer em si, mas sim na natureza do ato de fazer. Quando não estamos conscientes internamente, ficamos tão envolvidos com nossos planos e ações que não percebemos o acúmulo de resíduos mentais. Assim, o ímpeto do "fazer pensando no futuro" continua na mente. Nesse estado, nem mesmo as pausas impostas pela natureza são revigorantes: temos dificuldade para adormecer ou mesmo para descansar profundamente. A mente simplesmente não relaxa.
O segredo para um maior equilíbrio reside na forma como enquadramos nossos esforços. Certa vez, um repórter perguntou a Mahatma Gandhi: "Sr. Gandhi, o senhor trabalha quinze horas por dia há cinquenta anos. Nunca sente vontade de tirar algumas semanas de folga e sair de férias?" Gandhi riu e respondeu: "Por quê? Porque estou sempre de férias." Ele vivia sem conflitos, fazendo exatamente o que queria, sem gerar estresse em sua mente. A explicação do estudioso de Gandhi, Eknath Easwaran, para isso é: "Como ele não tinha interesses pessoais em jogo, nem preocupações egoístas envolvidas em seu trabalho, não havia conflitos em sua mente que drenassem sua energia."
É claro que poucas pessoas podem afirmar com sinceridade que estão fazendo tudo exatamente do jeito que querem. Mas é um processo gradual. E embora não possamos reverter imediatamente o padrão de conflitos internos sutis, podemos ir resolvendo-os aos poucos. À medida que fortalecemos nossa capacidade de observar o que acontece dentro de nós, reconhecemos áreas de desalinhamento interno.
O simples reconhecimento já é poderoso. Sutilmente, um ciclo virtuoso se propaga: nossa consciência nos dá escolhas, e nossas escolhas aumentam nossa consciência. É um processo de constante aprimoramento, mas até mesmo hábitos profundamente arraigados começam a se dissolver, sendo o hábito mais enraizado e inconsciente de todos o da auto-orientação.
Quando nosso senso de propósito deixa de ser guiado por puro interesse próprio, isso muda o quanto nos importamos com os resultados de nossas ações. Gandhi tinha uma paixão imensa pelo que considerava seu trabalho, mas também era profundamente humilde , sabendo que o resultado de todo o seu esforço não estava totalmente sob seu controle.
Na verdade, isso só o inspirou a trabalhar ainda mais e, paradoxalmente, também libertou sua mente de maneiras poderosas. No auge da luta da Índia pela independência, Gandhi era conhecido por trabalhar mais arduamente do que nunca — 21 horas por dia, durante mais de dois anos. E, no entanto, a cinco minutos de discursar para a nação, quando alguém lhe perguntou o que ia dizer, sua resposta foi: "Não sei. Ainda não cheguei lá."
Embora esse tipo de presença intensa seja excepcional, não se trata de uma questão de "ou você tem ou não tem" — é um espectro. Na jornada de infundir mais presença em tudo o que fazemos, cada passo consciente em favor da consciência interior, cada momento em que exerço essa opção, compensa. O exemplo de um pé descansando enquanto o outro caminha destaca uma lição poderosa: se analisarmos a fundo, podemos perceber que existe um equilíbrio inerente entre rejuvenescimento e revigoramento, engajamento e observação, e ser e fazer.
O ponto ideal está, na verdade, no meio. Beneficiamos muito de um equilíbrio entre estrutura e espaço, entre ação e repouso, entre moldar conscientemente e ser receptivo. Podemos nos imergir completamente em um senso de propósito, mantendo a humildade, o que nos liberta do estresse de tentar controlar resultados inerentemente emergentes.
Ao praticarmos a presença plena , começamos a encontrar o ponto ideal e a vida se torna arte. Não apenas em como ela se manifesta. Nossa verdadeira arte reside em como construímos nossas próprias vidas, e a atenção e a intenção são a argila com a qual moldamos nossos dias. Nas palavras do próprio Gandhi: "Como seres humanos, nossa grandeza reside não tanto em sermos capazes de refazer o mundo, mas em sermos capazes de refazer a nós mesmos."
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6 PAST RESPONSES
Terrific reflections! Very timely - I liked the emphasis on the space in between rest and action.
Just lovely. I finally know what it feels like to NOT be drained from work since I have decided to pursue my passion for helping people be happy, helping people to learn to choose joy, and helping people to see the good in people, places, and things. That concept resonated deeply. Thanks for sharing. You've inspired me to read and learn more about Ghandi.
Thank you so much for this article! Talk about divine timing - this article came at exactly the right time in my life. I had such an epiphany about " balance" that I swore I'd thank the author. My best to you and to everyone else involved in this newsletter.
Thank you so much for reminding me of the necessity and power in being. It is challenging to respect the space for just being in our culture.
People are different. I am different too from all kinds of men. I like to do what I decided and stamina and limbo kills me before. If Ghandi worked those hours, it is great but I too remember working 18 hours everyday for 4 months. Why stress? because I plan and try to beat time. if it takes 6months to finish a course I normally to make it 3months. I did it and passed because life is how you shape.
My big problem is forgetting what I don['t practice. I remember mastering the Windows Command in 5 days while others were taking 29days. All is attention
True we have to start life living n loving for us n for others-------Capt Dr L B Kalantri nagpur ,maharashtra, India