
Na correria da vida contemporânea, somos absorvidos por uma atividade incessante que muitas vezes nos separa da nossa essência mais profunda. Com nossos smartphones e telas de computador, frequentemente permanecemos presos à superfície da vida, em meio ao ruído e à agitação que nos distraem constantemente, impedindo-nos de nos conectar com nossa verdadeira natureza. Sem perceber, afundamos cada vez mais em uma cultura de materialismo desprovido de alma.
Neste momento, considero cada vez mais importante termos atividades externas que nos conectem com o que é mais natural e nos ajudem a viver em sintonia com a essência do nosso ser, em plena consciência do momento presente, que é o que realmente dá sentido à nossa existência cotidiana. Ao longo dos anos, desenvolvi algumas práticas simples que unem ação e uma qualidade de atenção centrada no coração, ou seja, uma consciência aprofundada, que nutre nossas vidas de maneiras sutis. Essas atividades, como caminhar e cozinhar com amor e atenção, podem nos reconectar com a teia da vida, com nossa interconexão natural com a vida em sua beleza e maravilha. Elas podem nos ajudar a "desapegar" da nossa vida exterior e, em vez disso, nos enraizar no que é simples e real. Uma dessas práticas, que combina ação com consciência, é caminhar.
Ande como se estivesse beijando.
A Terra com os seus pés.
—Thich Nhat Hanh
Sempre adorei caminhar de manhã cedo, sentir a Terra no início do dia, sentir seu pulsar, sua beleza e magia, antes que pensamentos e exigências tumultuem meu dia. Ao acordar cedo, tomo uma xícara de chá quente, medito em silêncio e, assim que a primeira luz surge, desço a colina até a estrada ao lado do pântano onde moro. Às vezes, a geada brilha ao meu redor, outras vezes a água está turva pela neblina, uma garça branca aparecendo contra os juncos. Este é mais um momento de meditação silenciosa, caminhando, respirando, sentindo a Terra. Tento estar o mais vazia possível, apenas presente na penumbra, consciente do que me cerca. Oração, meditação, presença, consciência – essas são apenas palavras para uma prática que me imerge em um mistério que chamamos de natureza. Aqui, o sagrado me fala em sua própria linguagem, e eu tento escutar.
Agora moro ao lado do pântano, e a água da maré faz parte desse encontro, dessa comunhão. Outras vezes, em outras paisagens, foram rios e córregos, o som das asas das aves aquáticas, o amanhecer surgindo sobre os prados. Ou em florestas, um coro de pássaros diferente, animais cruzando a trilha, uma corça e seus filhotes. É sempre uma atenção plena, uma profunda receptividade ao que me cerca, uma reverência a um mundo além das pessoas. É uma lembrança do que é essencial, elementar, e seu alimento me sustenta ao longo do dia. É um retorno ao sagrado, sentido e percebido, sem palavras ou pensamentos – uma consciência primordial como se fosse o primeiro dia.
Essa é uma prática que me acompanha desde a adolescência – quando comecei a meditar, também precisava caminhar. Não foi algo que me ensinaram ou aprenderam, mas surgiu como uma necessidade, uma forma de ser, um antídoto para grande parte do mundo ao meu redor – um mundo de pessoas e problemas, exigências e desejos. Quando um pé segue o outro e o dia mal começou, parece que essas exigências não me afetam, como se eu estivesse imerso em algo mais simples, mais essencial. Colocar cada pé na terra é uma prática, mas uma prática que vem das minhas próprias raízes, não de um livro ou de um professor. Mais tarde, ouvi dizer que era “caminhar de maneira sagrada”, e é sagrado, um retorno ao que é sagrado. Mas também é mais profundo, mais primordial do que qualquer propósito. A natureza fala comigo e eu escuto. A natureza chama e algo profundo dentro de mim responde, e eu só preciso dar espaço. Sou parte de uma vida muito maior do que qualquer “eu”.

A Terra nos dá sustento: o ar que respiramos, o alimento que comemos. Ela é generosa de tantas maneiras, mesmo quando a esquecemos e a maltratamos. Mas existe também um alimento mais profundo, uma dádiva invisível e intangível. Minha caminhada matinal é uma comunhão – se estou receptivo, é como um vinho bebido profundamente. Ela se manifesta em sua paisagem, o musgo que goteja das árvores, as flores brancas e rosas que saúdam a primavera, o grito de uma ave marinha. Os primeiros raios do sol nascente são sempre uma bênção. Não compreendo isso com a mente, mas minha alma sente, precisa disso. Mais uma vez, estamos de volta ao início, naquele mundo elementar do qual nunca realmente partimos. Nossa cultura atual pode tê-lo esquecido, renegado, encoberto, pode fingir que não precisamos mais dessa comunhão, mas minha alma e meus pés sabem o contrário. Esta é a paisagem da alma tanto quanto os pântanos que se estendem em direção ao oceano. Mas também é qualquer paisagem que percorremos. Uma caminhada pelas ruas da cidade é composta pelos mesmos elementos: os pés tocando o chão, o ritmo da caminhada, a respiração, o mesmo céu acima, o vento tocando o rosto.
Gostaria de dizer que é fácil, mas com frequência preciso me lembrar de me reconectar, de esvaziar minha mente da confusão do dia que se aproxima, dos meus pensamentos cotidianos. Preciso permanecer em um estado de consciência plena, sentir meus pés, o ar, escutar. Preciso me lembrar de que não estou separado, mas sim parte de tudo ao meu redor. Preciso afastar esse grande mito da separação, essa grande mentira. Somos o ar que respiramos, a terra que tocamos, a mesma vida, viva de tantas maneiras. Somos a Terra despertando ao amanhecer, assim como somos os botões que desabrocham na primavera. Estar plenamente vivo é sentir como fazemos parte desse mistério abrangente. Minha caminhada matinal é uma lembrança, uma reconexão, vivenciada no corpo e sentida na alma.
Com frequência, preciso me lembrar de me reconectar.
Para esvaziar minha mente da confusão do dia que se aproxima,
Meus pensamentos diários.
Preciso manter-me em estado de consciência,
Sinto meus pés, percebo o ar, escuto.
Tenho que me lembrar de que não estou separado.
mas faz parte de tudo ao meu redor.
Prática de caminhada
Caminhar reforça nossa conexão com a Terra, um passo de cada vez. Sintonizar-se com o ritmo dos pés, o balanço dos braços, a inspiração e a expiração, as maneiras como a caminhada nos move através do tempo e do espaço, ajuda a desenvolver essa relação, lembrando-nos, consciente e inconscientemente, o quanto somos parte da natureza. A natureza é cíclica e rítmica, e caminhar – quando não estamos focados em para onde estamos indo – nos sintoniza com essa realidade não linear.
Talvez a melhor maneira de começar a prática da caminhada seja sozinho, quando a intimidade da comunicação com a natureza pode ser sentida sem distrações. Assim como quando conhecemos um amor no início de um relacionamento, não queremos compartilhar esse encontro com outras pessoas. Escolha um momento em que você possa estar sozinho, quando ouvir, escutar e sentir possam acontecer. Talvez no início ou no fim do dia, antes que o burburinho da vida tome conta ou depois que ele se dissipe. A hora do almoço ou uma pausa à tarde do trabalho podem ser mais difíceis, mas se esse for o horário disponível, certifique-se de que a caminhada seja longa o suficiente para que você possa se desvencilhar dos pensamentos sobre o trabalho ou das tensões do dia.
Desligue o celular ou, melhor ainda, deixe-o em casa ou no escritório. De certa forma, as vulnerabilidades inerentes à vida moderna foram atenuadas por nossas ferramentas de segurança cotidianas, como os celulares. Se você puder ficar sem a proteção e o acesso constante que eles proporcionam, experimente. As redes sociais não sentirão falta dos registros do seu passeio.
Se possível, encontre um parque ou uma trilha em meio a um bosque tranquilo. Deixe o ritmo dos seus passos acalmar sua mente e criar um espaço para a escuta. Sinta como seus pés se conectam com a terra, como o ar passa pelos seus pulmões. Siga sua atenção enquanto ela é atraída para dentro e para fora – para os movimentos internos do seu corpo e para a sensação de calor ou frio, a visão de pássaros, o som de um avião distante. Deixe seus pensamentos e impressões fluírem, como parte do ritmo natural da caminhada. Assim como retornamos à respiração na meditação silenciosa, volte sua atenção para seus pés e para o contato e o afastamento deles com o chão.
Comprometa-se a caminhar todos os dias, se puder. Caminhe sem expectativas, com uma atitude de abertura e gratidão. Se sentir um anseio interior – uma necessidade de conexão, um desejo de estar mais perto da natureza – deixe que isso o motive e o guie.
O filósofo existencialista do século XIX, Søren Kierkegaard, escreveu certa vez em uma carta à sua sobrinha: "Todos os dias, caminho até um estado de bem-estar e me afasto de todas as doenças. Caminho até meus melhores pensamentos e não conheço nenhum pensamento tão pesado do qual não se possa escapar."
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4 PAST RESPONSES
'..walkin down the line, jes a walkin down the line, ima walkin down the line, feelin mitey fine, ain't a worried bout my troubling mind'
My knees gave every sign that they'd give out when I was in my 20s. Fitness was it back then (1980). I had goals and routes that I'd walk. The best thing I ever did was give up the goals, give up the routes, to begin just wandering aimlessly. I love going on dark summer nights to see the lightening bugs and the night sounds. I love the birds at dawn. I just stroll while repeating Thich Nhat Hahn's centering gathas. Wonderful
Thank you for the reminder of the power of the simply art of mindfully walking!
Some love to run or cycle (I did for years), but walking is best for wholeness (holiness), it is "godspeed" - 3mph. }:-) ❤️👍🏼