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Ouse Se Surpreender

Uma pomba constrói seu ninho no galho mais alto do salgueiro em frente à minha porta. Ela voa para cima e para baixo carregando galhos de todos os tipos: curtos, longos, retos, curvos. Há pouco tempo, um galho maior, com vários rebentos, deu-lhe bastante trabalho. Não consigo ver o ninho por trás da folhagem, mas consigo imaginar o árduo esforço: entrelaçar todos aqueles galhinhos até que formem uma teia e, finalmente, um ponto de apoio firme para a vida.

Eu poderia observá-la ir e vir o dia todo. Ela não tem movimentos extravagantes. Pombos e seus ninhos não são exatamente coloridos ou encantadores. E, no entanto, há algo em suas idas e vindas que me atrai profundamente. O que motiva aquele pombo a continuar mergulhando em busca daqueles galhos? O que o impulsiona a trabalhar incansavelmente dia após dia, semana após semana, até que aquele monte disforme se torne um refúgio digno do que está prestes a receber?

Seria fácil falar de instinto, de imperativo biológico, de memória evolutiva. Mas nada disso significa muito para a parte de mim que observa com admiração, transbordando de compaixão e conexão.

Eu também construí um ninho para acolher meus filhotes, creio. Também escolhi os materiais com cuidado, acomodei-o sob um galho protetor e esperei pacientemente pelo amadurecimento. Nesse ato impulsionado por forças misteriosas – motivação e consciência parecem irrelevantes aqui –, vejo-me naquela pomba voando para cima e para baixo com o bico pesado, totalmente concentrada na única tarefa que importa.

Vejo-me a mim mesmo, como me vejo no salgueiro, que, devido a uma perigosa inclinação para um lado, começou recentemente a brotar ramos na direção oposta, numa tentativa fútil, mas heroica, de equilíbrio. Quantas vezes cultivamos ramos corajosos na direção oposta às nossas fraquezas? E se esses ramos não derem certo, se não alcançarem o objetivo almejado, a aspiração torna-se menos nobre? Acho impossível passar por esses ramos sem enxergar neles uma forma palpável de inteligência, uma sede de vida, algo semelhante a um propósito; e, ao mesmo tempo, sentir-me comovido pela insuficiência desse esforço. De fato, essa obstinada vontade de frustrar o inevitável ressoa em mim acima de tudo.

Talvez seja ingenuidade me ver no galho, na árvore, no pombo. Se for, permitam-me dizer com (Richard) Buckminster Fuller, o magnífico inventor: "Ouse ser ingênuo!" Lembro-me dessa frase quando me pego duvidando dessas impressões, porque sei que a fonte de onde elas brotam é profunda.

Sei que ser testemunha da força da vida (mesmo quando ela falha), maravilhar-se com o mistério que a anima, é provavelmente a nossa missão mais importante.

Valorizar o vínculo invisível que une bico e galho, olhos que observam e coração que se alegra, pode ser uma forma de reverência, de ocupar o próprio lugar no grande coro, na orquestra fragmentada que consegue fazer música, sempre, aconteça o que acontecer.

Então me lembro de Mary Oliver, que em seu poema Messenger pergunta:

Já não sou jovem e ainda não sou nem metade perfeito?
Deixe-me manter o foco no que importa, que é o meu trabalho.
que consiste basicamente em ficar parado e aprender a se maravilhar.

Então, fico imóvel e observo a árvore retorcida, o pombo em sua jornada incessante, e sorrio para o mistério, para o esforço, para a graça.

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COMMUNITY REFLECTIONS

1 PAST RESPONSES

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Patrick Watters Jun 24, 2018

❤️