O fim do ano é sempre um momento para refletirmos sobre o que fizemos e o que deixamos de fazer. E, claro, é hora de começar a pensar nas resoluções para o ano novo e no que faremos de diferente.
Nossas resoluções de Ano Novo geralmente visam pequenos vícios — comer menos petiscos, beber menos, parar de fumar, fazer mais exercícios — quaisquer que sejam suas auto-admoestações particulares. Mas é muito fácil se perder nos detalhes — e nos aspectos negativos.
Ao definirmos nossas resoluções, devemos primeiro dar um passo atrás e avaliar o que realmente queremos, o que consideramos ser uma vida boa, e então pensar em qual a melhor maneira de alcançá-la.
Bem-estar é mais do que apenas estar bem.
O antropólogo Arjun Appadurai nos incentiva a sermos guiados por uma “ética da possibilidade” — esperança, aspiração, otimismo — e não apenas pela “ética da probabilidade” — custos e benefícios, gestão de riscos e racionalidades sistematizadas. Podemos ser pragmáticos, mas não deixemos que esse pragmatismo mate nossos sonhos de como as coisas poderiam ser melhores.
Passei os últimos anos estudando o que contribui para uma vida boa — os elementos do bem-estar — para pessoas ao redor do mundo. Conversei com cafeicultores maias em áreas rurais da Guatemala e com consumidores de supermercados em áreas urbanas da Alemanha, além de americanos de todas as classes sociais. Analisei as noções de bem-estar em Moçambique, no Brasil e na China. Descobri que a renda é importante, mas não tão importante quanto poderíamos imaginar inicialmente. Saúde e segurança também são necessárias, mas insuficientes para uma vida plena.
O bem-estar, afinal, vai além de simplesmente estar saudável. Requer também relações familiares e sociais sólidas, um senso de dignidade em nossas vidas e equidade em nossas oportunidades, além de compromisso com propósitos maiores.
Por exemplo, Miguel, um cafeicultor maia de 43 anos em Huehuetenango, Guatemala, que conheci durante minha pesquisa, se beneficiou nos últimos anos do boom do café de alta qualidade nos EUA. Ele diz que a vida está boa agora — mesmo que possamos caracterizar suas circunstâncias como extremamente pobres. Ele encontra dignidade em possuir sua própria terra, em cultivar café de qualidade que alcança um preço justo. Ele está comprometido em proporcionar mais oportunidades para seus filhos, e isso dá um propósito maior ao seu árduo trabalho.
Esses grandes propósitos podem assumir muitas formas diferentes. Os consumidores alemães que compram produtos orgânicos e de comércio justo veem isso como uma maneira de vincular o consumo a projetos morais de gestão ecológica e solidariedade social. Dominar um ofício, o ativismo político, até mesmo o extremismo religioso — tudo isso são maneiras de darmos um significado maior à vida.
Com base nesta pesquisa, podemos extrair algumas lições para as nossas resoluções de Ano Novo. Primeiro, precisamos nos perguntar o que é realmente importante em nossas vidas — e como podemos alinhar nossas ações a esses valores. Em seguida, devemos nos comprometer, ou renovar nosso compromisso, com propósitos maiores que vão além do interesse próprio. Esses propósitos podem ser grandiosos (mudar de emprego para algo mais significativo) ou modestos (cozinhar mais em casa para a família) — o essencial é que sejam mais do que apenas buscar o sucesso profissional.
Lições para um feliz Ano Novo
De fato, às vezes, ser menos produtivo economicamente pode nos tornar mais bem-estar. Filipe Campante e David Yanagizawa-Drott descobriram que, em países muçulmanos, o jejum e as observâncias durante o Ramadã tiveram um impacto negativo no crescimento do PIB, mas que os indivíduos também relataram estar mais felizes e satisfeitos com suas vidas. Abrir mão de algo por um bem maior — e simplesmente doar de forma mais ampla — é profundamente gratificante.
Em segundo lugar, devemos ser generosos com o tempo que investimos em relações familiares e sociais. Os bens materiais geralmente trazem apenas uma felicidade passageira, e ainda assim, muitas vezes depositamos nossas esperanças e sonhos na acumulação de coisas que esperamos que nos façam felizes. Focar em relacionamentos e experiências contribui muito mais para nossa satisfação com a vida a longo prazo. Em diversas culturas, constatamos que relações sociais fortes e a quantidade de tempo gasto com a família são bons indicadores de bem-estar geral.
Para muitos nos EUA, isso significa ajustar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Na Alemanha, há uma clara distinção entre trabalho e lazer. Os alemães são mais produtivos que os americanos quando estão trabalhando, mas também trabalham menos e protegem seu tempo livre. Na Volkswagen, os gerentes exigiram que os servidores Blackberry fossem desligados após o expediente para que não se esperasse (ou se tentasse) que eles respondessem em seu tempo livre. Os americanos passam muito mais tempo no trabalho do que muitos outros países industrializados — cerca de 1.800 horas por ano, em média, em comparação com cerca de 1.400 horas para os alemães. Em 1930, John Maynard Keynes previu que, a essa altura, a produtividade seria tão alta que a semana de trabalho média seria de apenas 15 horas. E, no entanto, nossos desejos materiais superaram até mesmo nossos ganhos expressivos de produtividade.
Por fim, devemos reservar um tempo para nos afastarmos da nossa cultura de correria e ambição desenfreada, para apreciarmos o que já temos. Pode ser da natureza humana querer mais, mas uma vida plena também se baseia na gratidão e no propósito.
Este artigo foi originalmente publicado pelo The Conversation. Foi editado para a revista YES!.
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