Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a tentar incessantemente empurrar uma grande pedra até o topo de uma colina, uma atividade que Zeus havia planejado para que, à medida que se aproximasse do topo, a pedra rolasse para longe de Sísifo. A história captura a frustração máxima e as atividades que consomem toda a nossa energia, sem fim à vista. Todo o exercício foi armado contra Sísifo desde o início. O pobre coitado jamais conseguiria vencer a gravidade. Mesmo sendo o castigo de Zeus pela suposta arrogância de Sísifo, é impossível não sentir pena dele. Aliás, se você já se envolveu em ativismo, campanhas ou causas relacionadas às mudanças climáticas ou a qualquer outra questão, provavelmente está se identificando com ele neste momento.
Essa tem sido a sensação por muitos anos, particularmente em relação à emergência climática e ecológica e ao ativismo pela justiça social. Tentar gerar mudanças reais tem sido como tentar empurrar uma pedra morro acima. Tem sido exaustivo, implacável. Temos lutado contra a gravidade da cultura ao nosso redor, da mídia, da cultura de massa, das decisões de investimento de grandes corporações e elites privilegiadas, da publicidade. Argumentar pela profunda transformação da nossa cultura que essas crises exigem tem sido um caminho solitário, com todas as normas da nossa cultura nos rotulando como extremistas, idealistas iludidos, tolos ingênuos ou, como Donald Trump recentemente chamou os ativistas climáticos, “Profetas da Perdição”.
Refletindo dessa forma, fico pensando no que Sísifo sonhava enquanto empurrava e arrastava sua pedra morro acima, com o suor escorrendo pela testa. Será que em algum momento ele parou para imaginar como seria o outro lado daquela colina íngreme, se chegasse lá? Será que ele se permitiu sonhar com a possibilidade de ver aquela pedra saltando por conta própria, de sentir a gravidade como sua amiga em vez de sua inimiga? Como ele visualizava o outro lado da colina? Ou será que a tarefa de mover sua pedra centímetro por centímetro em direção ao topo era tão absorvente que ele não tinha mais capacidade para imaginar tal coisa?

Sísifo (1548–49) de Ticiano, Museu do Prado, Madrid, Espanha. Wikipédia.
Neste momento, sinto que estamos no ponto de virada, ou muito perto dele, em relação a essas questões, aproximando-nos do momento em que a gravidade da situação começa a mudar. Desde o início do Extinction Rebellion e das greves estudantis, desde que Greta Thunberg iniciou suas greves, tenho a sensação de que, bem no fundo do nosso corpo, as placas tectônicas finalmente começaram a se mover. Lenta e imperceptivelmente a princípio, mas definitivamente se movendo. Vimos 65% dos conselhos municipais do Reino Unido declararem emergência climática . Onde moro, dois projetos de usinas termelétricas a gás tiveram seus pedidos de licenciamento negados.
Vimos primeiro os aeroportos de Stansted, depois Bristol e, por fim, Heathrow, terem seus pedidos de licenciamento ambiental negados sob a alegação de que se trata de uma emergência climática. Mais recentemente, a proposta de "modernização" da rodovia A303, que liga Hampshire a Devon, passando por Stonehenge, também pode ser cancelada em função da decisão sobre Heathrow, um precedente cujas implicações as pessoas estão apenas começando a compreender. Os bancos estão começando a se afastar das empresas de combustíveis fósseis, e analistas financeiros da TV anunciam que estamos "na fase final" dos combustíveis fósseis e que eles são "o novo tabaco". Vale lembrar que a maior parte disso era inimaginável há um ano.
Tudo isso me faz refletir e começar a sonhar com o lado bom da jornada, de uma forma que Sísifo provavelmente nunca se permitiu. De fato, como argumento em " Do Que É ao Que Poderia Ser" , nesses momentos de sobrecarga, sem espaço, sem capacidade para reflexão e devaneio, nossa habilidade de pensar de forma imaginativa e esperançosa sobre o futuro fica bastante limitada. Daí a necessidade, em nossos movimentos e em nossas campanhas, de criar espaço para sonhar, para imaginar o futuro que gostaríamos que surgisse como resultado de tudo isso.
Como seria estar do outro lado da colina, fazendo o trabalho que fazemos em um contexto onde a gravidade é nossa aliada? Em um contexto onde as políticas públicas, o financiamento e as normas culturais apoiam o que fazemos, e não se opõem a isso? Seria um mundo muito diferente, onde as políticas e o financiamento servem à transição acelerada, onde a cultura e as narrativas sobre o que é "normal" mudam rapidamente, onde a aceitação social para voar e outros comportamentos de alta emissão de carbono se altera com a mesma rapidez. Da nossa posição, neste lado ascendente da encosta, é difícil imaginar, mas precisamos imaginar. Às vezes, em minhas viagens, vejo lugares onde a inclinação já aconteceu.

Perséfone supervisionando Sísifo no submundo, ânfora (vaso) de figuras negras da Ática, c. 530 aC, Staatliche Antikensammlungen. Wikipédia.
Há um cara que conheci na França que, há três anos, começou um negócio de compostagem de resíduos alimentares de empresas. Os dois primeiros anos foram exaustivos e ninguém se interessava. Então, algo mudou, e agora ele não consegue atender à demanda e está tendo que expandir seu negócio de uma forma inimaginável. Há também uma cidade francesa que agora produz 70% dos alimentos usados para alimentar as crianças nas escolas locais e que está descobrindo o mais interessante: como isso está mudando o comportamento dos pais de uma forma que eles jamais imaginariam. Sessenta por cento dos pais que nunca compraram alimentos orgânicos agora os incluem, pelo menos, em suas compras semanais. E existem muitas, muitas histórias assim, de pessoas que estão sentindo aquele frio na barriga que se sente no topo de uma montanha-russa.
É bem possível que olhemos para trás, para estes dias que estamos vivendo agora, e os vejamos como o ponto de virada. O importante sobre os pontos de virada é que não os reconhecemos como tal no momento em que acontecem. Só conseguimos enxergá-los de fato pelo retrovisor. Mas talvez, se nos permitirmos estar abertos a essa possibilidade, possamos pressenti-los naquele momento. Ontem, George Monbiot, ao anunciar uma ação judicial contra o governo do Reino Unido, baseada na decisão sobre Heathrow, com o objetivo de forçá-lo a abandonar todos os novos projetos de combustíveis fósseis, tuitou: "Acho que este é o ponto em que o navio começa a virar... Estou começando a vislumbrar o que seria uma vitória".
Isso reforça para mim a importância da imaginação em tudo isso. Se permitirmos que as narrativas que contamos a nós mesmos, no lado ascendente da montanha, excluam a possibilidade do lado descendente, estaremos nos prejudicando muito. Convencer-nos de que, de alguma forma, esse outro lado não existe, ou é impossível, reduz a probabilidade de chegarmos lá, de sermos capazes de reconhecer as possibilidades quando elas surgirem.
É claro que nada disso significa que, ao chegarmos à descida da ladeira, não descobriremos que já é tarde demais. Não é garantia de vitória. E não é como se os fantasmas desaparecessem, ou como se as tendências ecológicas assustadoras se revertessem magicamente, ou como se as pessoas, de repente, parassem de eleger lunáticos. Mas, se quisermos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar o pior, precisamos começar nos permitindo imaginar como seria ter a gravidade a nosso favor, e como poderíamos, de fato, trabalhar, celebrar, lamentar, dançar e arregaçar as mangas nesse contexto tão diferente, onde todos têm uma noção de "como seria vencer".
Imagino Sísifo em pé no topo da colina, mãos na cintura, o suor esfriando em sua testa, enquanto contempla, incrédulo, a vista totalmente nova e antes inimaginável diante dele, ciente de que a rocha à sua frente agora poderia se mover por conta própria se ele decidisse empurrá-la, e esse pensamento me faz lacrimejar.
***
Para mais inspiração, participe do Awakin Call deste sábado com Rob Hopkins. Detalhes e informações para confirmação de presença aqui.
COMMUNITY REFLECTIONS
SHARE YOUR REFLECTION
2 PAST RESPONSES
May it be so.
Thank you for this reframe! Indeed, what if? Thank you for the powerful examples in UK and France!
Yes, we become the stories we tell, this was the former name of a program I created in the wake of the 2016 US election, now reframed to "Steer Your Story" which is all about recovery from trauma, taking the driver's wheel to symbolize one's own agency in their life story & within the world around them.
Indeed, what is on the other side of the hill?♡ I look forward with hope....