Dois caminhos divergem
Desde o princípio, os seres humanos têm sido tão
É preciso compreender as leis que governam o universo, seu papel na grande orquestra cósmica e uma existência marcada pela constante interação entre alegria e dor, beleza e abominação, espanto e angústia, vida e morte.
Desde cedo, essa busca por significado levou a humanidade a explorar a dimensão espiritual. Essa exploração seguiu dois caminhos principais, acompanhando os dois movimentos descritos por Platão e pelos neoplatônicos: uma direção ascendente, que segue da matéria para o espírito; e um caminho descendente, que vai do espírito para a matéria. De acordo com essa visão, o cosmos é um todo multidimensional, composto por correntes ascendentes e descendentes de amor divino.
Os povos e tradições que adotaram o caminho ascendente — as religiões monoteístas (com notáveis exceções, como o místico São Francisco de Assis) — buscavam o espírito nas elevadas alturas da existência e priorizavam valores e aspirações “masculinas”, como a luz pura, a visão e o transcendente. Por meio de orações, jejuns, meditações e estilos de vida austeros, essas tradições buscavam deixar para trás o mundo imperfeito da forma para se concentrarem na fonte eterna de tudo o que existe.
Por outro lado, os povos que adotaram a visão descendente — as culturas pagãs, xamânicas e predominantemente matriarcais — encontraram o divino refletido em cada folha e criatura. Cultivaram valores femininos, privilegiando o que nos une, o terreno e o imanente. Em vez de aspirarem à iluminação, esses povos mergulharam no submundo, que é o reino da alma.
O que é a alma nessa concepção? É o núcleo primitivo e essencial da nossa individualidade, a porção do espírito que vive em nós e adota as nossas características peculiares — aquelas que nos distinguem de todos os outros.
A jornada descendente mergulha nas profundezas, em busca daquela expressão particular do sagrado que é você. Explora nossa natureza animal, nossos medos mais profundos, nosso diálogo com a morte e a doença, nossa experiência da sexualidade, nossos desejos, nossas criações, nossos sonhos, nosso inconsciente e seus símbolos.
Assim define o brilhante psicólogo junguiano James Hillman a diferença entre espírito e alma: A alma gosta de intimidade, o espírito é inspirador. A alma fica peluda; o espírito é careca. O espírito vê, mesmo na escuridão; a alma tateia o caminho, passo a passo, ou precisa de um cão. O espírito atira flechas, a alma as recebe no peito. William James e D.H. Lawrence expressaram isso da melhor forma: O espírito gosta do todo. A alma gosta da individualidade.
Em seu livro Soulcraft: Crossing into the Mysteries of Nature and Psyche (Arte da Alma: Atravessando os Mistérios da Natureza e da Psique), o psicólogo analítico e guia de natureza Bill Plotkin oferece uma definição mais formal:
Enquanto a alma está associada aos muitos mistérios terrenos, o espírito está associado à única bem-aventurança celestial. A alma abre a porta para o desconhecido ou o ainda não conhecido, enquanto o espírito é o reino além de qualquer tipo de conhecimento, a consciência sem objeto. A alma é encontrada no subconsciente (isto é, aquilo que está abaixo da consciência), enquanto o espírito é apreendido em estados de superconsciência. Ambos estão associados a estados de êxtase (isto é, fora do ordinário), mas o encontro com a alma é caracterizado por sonhos e visões do destino pessoal, enquanto a realização do espírito gera uma consciência pura e livre de conteúdo.
Os dois caminhos — o ascendente e o descendente — complementam-se e se completam. Cada um, em si, oferece uma experiência parcial do divino. No entanto, desde o advento da modernidade, o caminho descendente tem sido desencorajado, senão mesmo proibido. Como afirma Plotkin, mais uma vez:
Talvez nossos antepassados religiosos e políticos temessem as influências da natureza e da alma, nos afastando do selvagem e tentando controlar ou destruir a natureza selvagem onde quer que ela fosse encontrada. O medo da natureza e da alma é o medo da nossa própria essência.
Por meio dessa visão fragmentada, a Terra e suas criaturas perderam seu status divino. O cisma se agravou no século XVIII, com o advento do racionalismo. Sem querer minimizar o progresso trazido por essa fase de desenvolvimento, o racionalismo também elegeu o intelecto como a nova divindade e descartou todas as outras formas de conhecimento como mera superstição. A sabedoria dos povos indígenas, baseada na intuição e no diálogo com as forças da natureza, foi negada ou atribuída a um estágio infantil da consciência humana.
O mito do progresso científico e industrial ilimitado, com sua visão da natureza como um recurso a ser explorado, tornou-se dominante e hoje ameaça destruir o planeta. A rejeição da matéria — primeiro de um ponto de vista espiritual, depois intelectual — deu lugar, paradoxalmente, a uma era de materialismo sem precedentes.
Essa mudança de perspectiva empobreceu nossa experiência do mundo: perdemos a capacidade de dialogar com outras espécies, de nos reconhecermos nos ritmos e ciclos da natureza, de nos sentirmos confortáveis em nossos corpos e com os corpos dos outros; em suma, de pertencer.
Na segunda metade do século XX, o movimento Nova Era trouxe ventos de mudança, defendendo uma agenda ambientalista, feminista, libertária e progressista. Foi um ponto de virada necessário, impulsionado em parte pela influência da sabedoria oriental que chegou ao Ocidente e pelo encontro de dois mundos. No entanto, ao longo das décadas, acabou alimentando o antagonismo, ao priorizar a transcendência como a única forma de acessar o espírito. Um dos resultados mais visíveis dessa preferência é o fenômeno que o autor Robert Augustus Masters batizou de “desvio espiritual”: a propensão a querer resolver problemas físicos ou psicológicos recorrendo unicamente a práticas espirituais (meditativas, contemplativas, energéticas); ou seja, usando essas práticas como se fossem atalhos para a cura. Aqueles que caem nessa confusão podem evitar consultar um profissional médico para sintomas físicos graves; reprimir emoções como raiva ou medo por considerá-las “não espirituais”; suportar abusos em nome de uma “compaixão” mal compreendida; ou evitar conversas difíceis, mas importantes, em nome da manutenção da paz.
Outro aspecto do mesmo fenômeno é o que o mestre budista Chögyam Trungpa chamou de “materialismo espiritual”: o uso da espiritualidade para atingir objetivos pessoais no mundo, o que, em última análise, a desnaturaliza.
Autores como Ken Wilber, fundador do pensamento integral, alertam que décadas de práticas budistas para o desenvolvimento do desapego e da equanimidade pouco contribuíram para o amadurecimento psicológico e emocional dos praticantes. Em outras palavras, por mais que alguém se esforce pela paz e disciplina no dojo, templo ou retiro de fim de semana, se não trabalhar ativamente para resolver seus problemas profissionais, familiares ou pessoais, se não examinar suas sombras e cuidar dos detalhes mundanos de sua existência, seus esforços na busca pela iluminação serão em vão.
Prova disso são os escândalos que abalaram a comunidade budista norte-americana quando gurus de mosteiros remotos, que tinham pouco ou nenhum contato com dinheiro, mulheres ou sexualidade, chegaram aos Estados Unidos e se viram cercados por um mundo de tentações desconhecidas.
Não é de admirar que tenham cometido erros típicos da adolescência, chegando até mesmo a cometer abusos. Wilber adverte: não basta despertar; é preciso também amadurecer.
Thomas Moore, autor do best-seller "O Cuidado da Alma", também desconfia de uma espiritualidade que privilegia apenas a transcendência em detrimento do terreno: "Se definirmos nossa espiritualidade apenas em termos positivos e luminosos, ela se tornará sentimental e, então, inútil. Ser espiritual não é apenas orar e meditar, mas também se envolver nas lutas do casamento, do trabalho e da criação dos filhos; na responsabilidade social e no esforço para construir um mundo justo e pacífico."
Nessa visão de mundo, o “ativismo espiritual” não é uma contradição em termos, mas uma expressão concreta do amor em ação.
A verdade é que precisamos de ambos: o caminho ascendente, que busca a fonte através da visão, da sabedoria e do desapego; e o caminho descendente, que encontra o divino aqui na Terra e se esforça para expressá-lo através do serviço, da generosidade e da compaixão.
Em nossas vidas, transitamos naturalmente de uma polaridade para outra: buscamos o silêncio em busca de inspiração e contentamento; depois, retornamos ao mundo e compartilhamos essa paz com nossa comunidade. Ou, inversamente: vivenciamos algum evento corriqueiro — um amigo que oferece ajuda; um céu estrelado; um pássaro que alimenta seus filhotes — e isso nos impulsiona diretamente para o mistério.
Precisamos abraçar a multidimensionalidade da vida: conciliar luz e sombra; ser e fazer; dar e receber; elevação espiritual e amadurecimento psicológico e emocional. Recuperar a face feminina do sagrado é uma forma de corrigir o desequilíbrio e oferecer ao mundo o alimento que ele anseia há séculos: a união sagrada que integra os opostos e nos traz integridade. É esse mesmo anseio que inspira estas páginas.
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