Comparar o próprio sofrimento com o sofrimento alheio não é uma tendência incomum. O grau desproporcional de perdas que testemunhamos no último ano deixou muitos lutando para entender seu lugar na hierarquia de quem está em pior situação. Quando o mundo como o conhecemos passa por mudanças turbulentas, como devemos encarar nossos dias tristes e corações partidos? Neste artigo, a escritora e terapeuta Emily Barr explora o conceito de sofrimento comparativo e seu antídoto: a compaixão.
Escrevo muito sobre resiliência e como lidar com a incerteza: a inevitabilidade da mudança e sua contrapartida, a resistência; nossa incrível capacidade de sobreviver, e até prosperar, em meio ao trauma; a neuroplasticidade que nos permite adaptar-nos até mesmo às circunstâncias mais adversas. Escrevo sobre isso não apenas porque me compadeço com o sofrimento alheio, mas porque eu, como imagino que a maioria de vocês que estão lendo, já vivenciei o tipo de contratempo que nos derruba e os momentos em que sentimos que a vida que estamos vivendo não é aquela que escolhemos.
Existe um termo, sofrimento comparativo, que se refere à nossa tendência de medir nosso sofrimento à luz da dor de outra pessoa. Em outras palavras, quando você percebe que alguém está em situação pior que a sua, sua experiência lamentável repentinamente empalidece em comparação. Aqui está um exemplo:
Você se envolve em uma pequena colisão a caminho de casa depois do trabalho. Naturalmente, você fica irritado. A parte lógica e racional do seu cérebro desliga e a metade emocional e intuitiva começa a enumerar preocupações como se essa fosse sua função. (E, de certa forma, é mesmo.)
Por que eu?
Que desastre.
Meu seguro cobre isso?
O que será que o outro motorista estava pensando?
Enquanto isso, o trânsito parou. Seu coração dispara e você começa a elaborar uma lista mental de todos os motivos pelos quais odeia ir para o trabalho, não sem antes fazer uma rápida oração a quem estiver ouvindo para estar em qualquer lugar, menos na faixa da direita com o pisca-alerta ligado, no auge do horário de pico.
Já mencionei que está chovendo? Claro que está.
Mais tarde naquela noite, quando você já não está mais descontando sua raiva nas almofadas decorativas inocentes que estão ali apenas para enfeitar e nos armários da cozinha que estão ali apenas para guardar a louça que você de repente considera "totalmente errada", você começa a pensar no impacto que o último desastre natural está causando em suas vítimas inocentes e nas tartarugas marinhas que morrem todos os anos por ingerir o plástico que polui nossos oceanos. Você se lembra da pessoa sem-teto que cruza seu caminho toda vez que sai para almoçar, hoje não foi exceção, e se convence de que poderia escrever uma tese sobre como nosso sistema econômico atual está falhando com os pobres.
Ao sentar-se para escrever a tal tese, você começa a se sentir culpado por ter feito tanto alarde por causa da pequena amassadura que, ainda que temporária, estragou seu carro, que de resto estava impecável. "Tenho tanta sorte de ter um carro confiável", você pensa. Abandonando a tela em branco à sua frente — a tese pode esperar — você se dedica a registrar tudo aquilo pelo qual é grato, desde o ar puro que respira até a estreia da temporada daquela série que todo mundo está comentando e que você mal pode esperar para assistir.
E assim, de repente, você cai numa espiral de vergonha, porque quem é você para se chatear com uma simples batida de carro quando as baleias estão morrendo e sua vizinha não consegue dormir porque o bebê dela é noturno?
O problema com o sofrimento comparativo, argumentam os pesquisadores, é que ele nos leva a acreditar que nossos sentimentos não importam, pelo menos não tanto quanto os de indivíduos que estão enfrentando dificuldades maiores do que as nossas. Dizer constantemente a si mesmo que as decepções e perdas que você sofre não são grande coisa não ajuda ninguém. Na verdade, fazer isso apenas desvia sua energia de ajudar o próprio indivíduo, grupo ou espécie com quem você está se comparando.
Não precisamos que a experiência de um amigo seja melhor ou pior em comparação para dar sentido à nossa própria; uma flor não precisa classificar sua beleza pelas flores que a rodeiam, assim como uma gota de chuva não precisa determinar seu significado pelo local onde as outras gotas caem.
É normal ficar triste com o fechamento da sua cafeteria favorita, ao mesmo tempo que se sente grato por viver em uma cidade onde não faltam opções para tomar um café. É normal sentir o coração partido pelo fim de um relacionamento enquanto sua colega passa por um divórcio complicado. É até normal celebrar os primeiros momentos da sua filha enquanto se preocupa que todas as outras mães estejam fazendo tudo melhor do que você.
Está tudo bem estar onde você está e lidar com o que está sentindo. Perdas devem ser lamentadas; decepções, amenizadas.
Ao longo do último ano, muitos dos meus clientes demonstraram culpa e vergonha ao falar sobre assuntos como dificuldades no trabalho ou os desafios e dificuldades do ensino domiciliar. Eles se distanciaram dos sentimentos de frustração e raiva associados a essas situações, descartando suas queixas com um "Poderia ser muito pior".
Como terapeuta, estou familiarizada com essa expressão. Mas ela estava sendo usada com tanta frequência que percebi que algo estava errado. Não que as preocupações dos meus clientes não fossem válidas; elas simplesmente não estavam sendo consideradas importantes o suficiente para merecerem atenção, tendo em vista o número de pessoas que estavam morrendo de COVID-19.
Parece familiar? Quando nos julgamos e julgamos nossas preocupações dessa maneira, somos rápidos em enumerar todas as bênçãos que deixamos passar, uma espécie de penitência por essa suposta má alocação de energia emocional.
Mas as bênçãos que contabilizamos não diminuem as queixas que nos é permitido expressar. E a raiva que surge quando testemunhamos uma injustiça social não significa que não possamos sentir aquela mistura peculiar de ressentimento e autopiedade quando cometemos um erro.
Sempre haverá alguém em situação melhor que a nossa e alguém em situação pior. Em vez de se culpar pelas pequenas perturbações que aparentemente te desestabilizam, preste atenção aos seus sentimentos e respeite a validade deles. Depois, demonstre compaixão por todos que estão sofrendo, inclusive por você.
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Recursos adicionais:
Brené Brown fez um podcast fantástico sobre esse assunto. Você pode ouvi-lo aqui .
Se sentir inspirado(a), comece hoje mesmo a praticar a meditação da bondade amorosa. Durante a meditação da bondade amorosa, você direciona energia amorosa e acolhedora para si mesmo(a) e para os outros. Se achar útil, use os links abaixo para começar.
https://ggia.berkeley.edu/practice/loving_kindness_meditation
https://www.mindful.org/a-6-minute-loving-kindness-meditation-to-expand-your-awareness/
https://self-compassion.org/guided-self-compassion-meditations-mp3-2/
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2 PAST RESPONSES
Compassion is the heart of the wounded healer. }:- a.m.
Thank you Emily, as a new(ish) Narrative Therapy Practitioner, I needed this reminder for myself. I'm adept at compassion for others and not minimizing their experiences, I'm still learning to turn that same grace and compassion inward. ♡