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Carta De Um Jovem De 15 Anos Para O Vizinho Do Outro Lado Da Rua

Hoje, meu pai me mandou uma foto do quintal em frente à nossa casa. Em volta, havia uns muros verdes bem frágeis, feitos para construção. Acho que alguém está construindo uma casa ali. Estou viajando do outro lado do mundo, então quando eu voltar, já terão começado a obra.
O quintal em frente à nossa casa é quatro vezes maior que o nosso. Todo verão, a grama alta começava a secar. Todo outono, o quintal ficava vazio. Todo inverno, pequenos brotos verdes surgiam — e, com a chegada da primavera, sem falta, flores da cor do sol desabrochavam, cobrindo cada centímetro do campo.
Agora, ao olhar para a imagem, sinto um vazio repentino.
Não confunda isso com raiva. Tudo o que é material acaba mudando. Passei muitas primaveras olhando para aquele quintal — admirando-o do outro lado da rua. Víamos coiotes uivando, coelhos saltitando e, ocasionalmente, um veado vagando por ali. Os pássaros da manhã cantavam, se despedindo de nós em nosso trajeto rotineiro para a escola. Ao amanhecer, no frio do inverno, um manto de geada se estendia suavemente por todo o campo.
Um casal bondoso, na casa dos oitenta, era dono da metade direita do campo. Os netos deles nos visitaram uma ou duas vezes e todos nós pulamos no grande trampolim redondo deles. Foi essa a inspiração para o nosso próprio trampolim. O avô, Larry, costumava trazer papoulas do jardim dele no campo para mim e minhas irmãs. De um laranja vibrante, como o pôr do sol, elas são a flor nacional do nosso estado dourado. Agora, a estufa de papoulas só comporta uma. A avó, Pat, ainda nos visita às vezes. Os bolos que ela faz são os melhores que já comi. Mesmo que ela ainda cuide do jardim, aquelas papoulas laranja vibrantes, como o pôr do sol, parecem não crescer mais.
Há uma árvore no lado esquerdo do campo que parece nunca crescer. Ela é apenas um pouco mais alta do que eu, e sua silhueta permanece sempre familiar. Um pinheiro gigante fica na linha divisória entre a direita e a esquerda. Quando chega o Natal, imagino-o todo decorado com luzes. Será que ele se tornará parte da casa do nosso futuro vizinho?
Apreciei a paz e o sossego da nossa casa isolada. Apreciei como a imensidão da grama alta e verde escondia os coelhos dos coiotes e como o jardim colorido perto da casa de Larry e Pat guardava doces lembranças. Apreciei ser a única casa naquela área de cerca de cem metros. Apreciei observar os animais vagando. Apreciei ouvir o canto dos pássaros.
O único problema é que eu não percebi o quanto gostava daquilo até que, aos poucos, começou a me ser tirado. Acho que é assim com tudo na vida. Às vezes, a gente só dá valor a algo quando já não está mais presente. Eu não sabia que aquela primavera seria a última em que veria o jardim do outro lado da rua florido; nem que seria o último verão, outono e inverno. Eu não sabia que a última vez que veria os coelhos pulando seria a última vez. A gente nunca sabe quando será a última vez. Ou talvez saiba. Mas mesmo assim, eu aconselharia a não ter tanta certeza.
Dito isso, “viva cada dia como se fosse o último”. Aproveite, aprecie cada momento sempre que puder. Pois você nunca sabe quando será a última vez.
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COMMUNITY REFLECTIONS

8 PAST RESPONSES

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Gregory Ho Sep 25, 2024
Love this original writing!
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Patricia Jouve Sep 19, 2024
What a beautiful,inspiring message! God bless every moment.
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Barry Moyer Sep 18, 2024
Life was better with bacon. A vegetarian for some twenty years now, I am still not entirely at peace with it. I love animals deeply, all of them, tho some species are more liked than others and a few are barely in the tent, I have managed to stay true to the cause. I have come to the understanding and agreement that no 'cause' is pure and unblemished and one must simply overcome temptation.
Perhaps when I am breathing my last, I will ask for one measly strip of bacon, one more moment of ecstasy before I am no more. God, make it so!
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Reverie de Escobedo Sep 18, 2024
Having several chronic conditions, a couple progressive one degenerative, watching myself become a new person in front of my eyes very quickly is a challenge I am trying to see as an opportunity. Thank you for this point of view.
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Davi Sep 18, 2024
You write beautifully and movingly. I had a very similar experience at age 12. There was a many miles long swath of woods and fields behind my family's backyard when I was growing up. I loved walking there, alone or with playmates. We found box turtles, frogs, lizards; we made short-lived ponds by damming the stream; and I learned many types of trees and flowers and their annual rhythms. One day surveying poles began appearing and a long straight new trail was cut. The entire swath had been designated to become a 6-lane highway. The stream would disappear into a culvert. Nearly the whole ecosystem would be destroyed. I was heartbroken. Eventually I learned that the highway plans had been in place for over a decade. State budget politics had delayed its construction. It was only because of the impending highway, that those woods had never been sold and developed for more suburban housing. In other words, the highway had actually "protected" that swath for all those years; and ... [View Full Comment]
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Kristin Pedemonti Sep 18, 2024
Beautiful and heartfelt description of how nature & place impacts. Thank you for sharing. ♡
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Sheila Sep 18, 2024
Lovely description of the power of place
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Shirley Sep 18, 2024
Very well said.