Costumamos pensar na brincadeira como algo próprio das crianças — algo que se supera com o tempo, algo que fica para trás quando entramos na vida adulta. Mas brincar não é uma mera indulgência infantil; é um portal que nos conduz à nossa verdade e ao nosso Eu (Eu com E maiúsculo). Brincar é uma das poucas experiências na vida que nos permite transcender o tempo linear e adentrar o que os budistas chamam de eterno agora — um espaço atemporal onde estamos totalmente absortos no que é, em vez do que precisa ser feito .

No entanto, muitos de nós esquecemos como brincar à medida que envelhecemos. Esse esquecimento parece inevitável, reforçado por uma cultura que mede o valor pela produtividade. O capítulo final de Ursinho Pooh permanece em minha memória. Quando Christopher Robin se prepara para deixar a floresta encantada da infância, Milne escreve: “Mas aonde quer que eles vão, e aconteça o que quer que lhes aconteça no caminho, naquele lugar encantado no topo da Floresta, um menino e seu Urso sempre estarão brincando.”
Essa frase é tão comovente porque reconhece o que a vida adulta muitas vezes nos ensina: a brincadeira parece perdida, mas não desapareceu de verdade. Ela permanece no "lugar encantado" da nossa memória. Deixamos para trás, mas a possibilidade de retorno está sempre presente.
Então, por que é tão difícil retornar? Claro, por conta da logística, das necessidades e dos cuidados com aspectos da vida que a humanidade desenvolveu. Mas talvez seja também porque tememos que portas se fecharam — portas que, quando éramos mais jovens, nem percebíamos que estavam abertas. Marion Woodman escreve sobre esse medo através da palavra alemã torschlusspanik, que significa “o pânico ao pensar que uma porta entre nós e as oportunidades da vida se fechou”. Essa ansiedade costuma surgir na meia-idade, quando sentimos que a espontaneidade das possibilidades se transformou em uma série de escolhas permanentes. Começamos a entrar em pânico por termos perdido a chance de mudar de rumo e estarmos presos a uma narrativa específica sobre quem somos.
No entanto, o Torschlusspanik é uma forma de esquecimento. Ele esquece que existem portas que não podem ser fechadas e que a brincadeira é uma delas. A brincadeira está sempre acessível, mesmo em meio ao luto, à transição ou à incerteza. Ela pede apenas que saiamos dos papéis que desempenhamos e nos envolvamos com a vida em seus próprios termos — de forma improvisada, intuitiva e aberta. Nos momentos mais sombrios, costumo pensar que devemos buscar a beleza, não como uma máscara para a escuridão, mas como um equilíbrio. Acredito que a brincadeira oferece esse mesmo contrapeso.
Ultimamente tenho pensado sobre karma, especialmente o karma neutro . Karma neutro é um termo que criei e uma teoria em desenvolvimento. Costumamos pensar no karma como um equilíbrio moral — o acúmulo de boas e más ações que moldam nosso futuro. Mas existe outro tipo de karma que existe em estado de equilíbrio, sem exigir o pagamento de dívidas. É fácil conviver com essas pessoas, você sabe quem são. O tempo pode passar e você retoma a conversa de onde parou. Respostas atrasadas por mensagem não são problema. Eu me pergunto se as pessoas com quem compartilhamos karma neutro são aquelas que nos lembram como brincar — pessoas com quem podemos simplesmente ser , sem fingimento ou pretensão. Relacionamentos baseados na brincadeira têm uma qualidade atemporal. Eles nos libertam da busca por resultados, nos reconectando a um ritmo de troca mais natural.

Existe um motivo pelo qual as crianças formam amizades por meio de brincadeiras compartilhadas, e não por objetivos em comum. A brincadeira cria um vínculo imediato que não exige explicações. Como adultos, tendemos a abordar os relacionamentos com uma mentalidade transacional — o que posso oferecer? O que receberei em troca? — mas a brincadeira nos convida a uma relação de presença compartilhada. Não se trata do que podemos produzir juntos; trata-se de estarmos juntos.
A sensação de brincar está intrinsecamente ligada à liberdade. Perder a liberdade significa abrir mão do fácil acesso à brincadeira — a liberdade de falhar, a liberdade de mudar de ideia, a liberdade de ser ridículo. Passamos a ter medo do constrangimento, medo de parecer tolos. Mas a brincadeira nos convida a afrouxar o controle e a dignidade, confiando que a alegria surgirá quando estivermos plenamente presentes no momento. A ironia é que as pessoas mais dignas são graciosas em sua própria tolice. E é evidente para todos nós que a tolice é uma forma de brincadeira.
A brincadeira pode assumir muitas formas. Pode ser uma conversa que divaga sem rumo. Pode ser escrever um poema que surge de uma imagem inesperada. Pode ser jogar tinta em uma tela, caminhar na floresta ou deixar o corpo se mover de maneiras estranhas e espontâneas. Não se trata do que a ação produz, mas de onde ela te leva.
“O que você fazia quando criança que fazia as horas passarem como minutos? Aí reside a chave para seus objetivos terrenos.”
—CG Jung
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Sugestões para incentivar a brincadeira
Ouvido recentemente
Anote uma frase ou um trecho de conversa que você ouviu por acaso esta semana. Deixe que isso guie uma exploração lúdica. Para onde isso te leva? Quem poderia estar falando? Que verdade oculta pode estar escondida nessas palavras?
Coisas em movimento
Observe algo se movendo ao seu redor — folhas sopradas pelo vento, um relógio ticando, alguém passando em frente à sua mesa na cafeteria. Escreva sobre esse movimento. Do que ele te lembra? O que mais está em movimento na sua vida? Para onde esse movimento poderia te levar se você parasse de tentar controlá-lo?
A Porta Por Onde Você Não Passou
Qual é a porta em sua vida que você escolheu não atravessar? (Um lugar para onde você não se mudou, uma viagem que você decidiu não fazer, um segundo encontro que você recusou.) Imagine o que poderia ter acontecido se você tivesse atravessado. Agora, concentre-se no presente: Que porta está diante de você agora? Que ato lúdico você poderia realizar para atravessá-la sem medo de permanência ou consequências (!!!)?
Uma vez em que você se perdeu
Lembre-se de uma vez em que você se perdeu, seja fisicamente ou metaforicamente. Para onde você estava tentando ir? Que descoberta inesperada você fez ao longo do caminho? Escreva como se se perder fosse o objetivo desde o início.
Encontrado em um bolso
Imagine encontrar um pequeno objeto misterioso no bolso de um casaco que você não usa há anos. O que é? Quem o colocou lá? Escreva uma pequena cena ou poema sobre a origem ou o significado do objeto. Como ele te convida a brincar? (Veja “Casaco de Segunda Mão”, de Ruth Stone.)
Ritual diário, invertido
Escolha um ritual diário (fazer chá, escovar o cabelo, arrumar um espaço) e imagine fazê-lo ao contrário. Como seria desfazer uma xícara de chá ou desarrumar um cômodo? De que forma inverter esse ritual poderia abrir caminho para algo novo?
Três coisas que você não pode jogar fora.
Liste três objetos que você guarda há muito tempo. (Tenho um pequeno tocador de música com a música "Let it Be" dos Beatles, que ganhei do meu filho caçula há muitos anos; uma cadeira de jardim que adoro e que dá para consertar, mas será que vou consertá-la?; e um par de tamancos que adoro e que quero muito usar, mas nunca uso, e mesmo assim continuo guardando.) Por que você os guarda? O que aconteceria se você se desfizesse deles — ou se brincasse com eles? E se esses objetos fossem personagens de uma história? Ou algo completamente diferente!
Um jogo que você esqueceu
Pense em uma brincadeira de infância que você não joga há anos. Descreva-a em detalhes — suas regras, seu cenário, seus sons. Agora, imagine jogar essa brincadeira como você é hoje. O que muda? O que permanece? Escreva sobre como a brincadeira ainda vive em você.
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Uma porta se abre quando nos permitimos brincar. É o oposto de torschlusspanik — não o medo de que uma porta tenha se fechado para sempre, mas a descoberta de que sempre existem portas que não vimos antes. Como Milne nos lembra, o lugar encantado da brincadeira não desaparece com o tempo. Ele está sempre lá, esperando que voltemos.
A questão é se corremos o risco de parecer tolos ao atravessar aquela porta novamente.
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