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Da Economia Do Ego Para a Economia Do Ecossistema

Da economia do ego para a economia do ecossistema

Crédito da foto: Shutterstock.

Vivemos numa era de profundas transformações. Crises globais nas áreas das finanças, alimentação, combustíveis, água, escassez de recursos e pobreza desafiam todos os aspectos das nossas sociedades. Essas transformações também abrem possibilidades para a renovação pessoal e social. Para aproveitar essas possibilidades, precisamos parar e nos fazer algumas perguntas básicas: por que nossas ações coletivas criam resultados que tão poucas pessoas desejam? O que nos mantém presos a velhos hábitos? E o que podemos fazer para transformar os problemas fundamentais que nos mantêm presos aos padrões do passado?

Eis uma pista para as respostas a essas perguntas: as causas profundas das crises globais atuais têm origem em nossas mentes, em nossos paradigmas ultrapassados ​​de pensamento econômico.

Os sintomas dessas crises podem ser resumidos em três divisões que nos desconectam de cada fonte primária de vida: ecológica, social e espiritual. A divisão ecológica se manifesta em sintomas como a destruição ambiental. Atualmente, utilizamos uma vez e meia a capacidade de regeneração do planeta Terra em nossas atividades econômicas. A divisão social se manifesta no aumento das taxas de pobreza, desigualdade, fragmentação e polarização. E a divisão espiritual se apresenta no aumento das taxas de esgotamento profissional e depressão, e em uma crescente desconexão entre o PIB e o bem-estar real das pessoas.

Essas desconexões estruturais indicam um sistema falho. Mas qual é a causa raiz que as produz? Acredito que ela se origina diretamente da maneira como pensamos sobre economia atualmente.

Como quase tudo na Terra, as estruturas econômicas têm seu próprio ciclo de vida, com nascimento, desenvolvimento e crescimento, antes de finalmente perderem sua utilidade. A teoria econômica moderna não é exceção. Por exemplo, após as crises globais da década de 1930, o pensamento econômico dominante evoluiu ao se abrir para a macroeconomia keynesiana, que então moldou a formulação de políticas durante a maior parte do século seguinte. Depois da crise de estagflação da década de 1970, a corrente dominante adotou a formulação do monetarismo de Milton Friedman, que influenciou a formulação de políticas pelos 30 anos seguintes.

Como esse ciclo de vida continuou? O pensamento econômico dominante mudou como resultado da crise financeira global de 2007 e 2008?

Infelizmente, não muito: os debates econômicos ainda são moldados pelas mesmas estruturas, figuras e falsas dicotomias que deram origem à crise. A intervenção bem-sucedida dos bancos de Wall Street após 2008 para impedir uma regulamentação bancária eficaz e o colapso das negociações climáticas globais em Copenhague no final de 2009 são exemplos claros da falha sistêmica do capitalismo em sua forma atual em lidar com os principais desafios de nosso tempo.

As principais deficiências da teoria econômica convencional podem ser resumidas em duas palavras: externalidades e consciência. As externalidades econômicas — os custos da atividade econômica — têm sido amplamente debatidas por formuladores de políticas e pesquisadores. Elas foram abordadas, ao menos em parte, por meio de sucessivas tentativas de regular e incentivar o comportamento corporativo a fim de reduzir a poluição e a exploração humana — pequenos primeiros passos, embora ainda haja muito a ser feito. Em contrapartida, a consciência é completamente ignorada, sequer figurando como uma categoria legítima no pensamento econômico. Por que ela é tão importante?

A atual economia capitalista é fundamentalmente egocêntrica: está estruturada para satisfazer meus desejos individuais e para privatizar ou mesmo atomizar a tomada de decisões. A maioria das tentativas de lidar com esse problema (como a responsabilidade social corporativa) o faz ampliando a consciência de consumidores e produtores para além de si mesmos, abrangendo o bem-estar de outras partes interessadas. Mas esse processo é inadequado para lidar com a magnitude e a complexidade das crises que enfrentamos.

O que realmente precisamos é de uma mudança profunda de consciência, para que comecemos a nos importar e agir não apenas por nós mesmos e por outras partes interessadas, mas também no interesse de todo o ecossistema em que as atividades econômicas ocorrem. Caso contrário, corre-se o risco de que essas externalidades sejam mitigadas enquanto a consciência que as cria permanece intocada, permitindo que os mesmos custos e ineficiências reapareçam sob uma nova forma. Não faz sentido, por exemplo, defender direitos de propriedade baseados em bens comuns e propriedade compartilhada se a consciência das pessoas ainda estiver presa ao nível individualista, egoísta e voltado para o próprio interesse.

Portanto, os imperativos econômicos de nossa época exigem uma evolução de nossa consciência, de um sistema baseado no ego para um sistema baseado no ecossistema, de um estado de consciência para outro. Parafraseando Einstein, o problema do capitalismo atual é que estamos tentando resolver problemas com a mesma consciência que os criou. Como podemos construir caminhos pioneiros rumo a uma economia cocriativa e ecossistêmica?

A transição da consciência egocêntrica para a consciência ecossistêmica exige uma jornada que envolve se colocar no lugar dos outros envolvidos e aprimorar os instrumentos pelos quais a consciência é criada: ou seja, uma mente aberta, um coração aberto e uma vontade aberta.

Uma mente aberta representa a capacidade de ver o mundo com novos olhos e suspender velhos hábitos de pensamento. Um coração aberto significa a capacidade de ter empatia, de ver qualquer situação pelos olhos de outra pessoa. E uma vontade aberta é a capacidade de desapegar e "deixar vir": desapegar-se de antigas identidades (como "nós contra eles") e deixar vir um novo senso de si mesmo e o que essa mudança pode tornar possível.

A transição do sistema econômico para um modelo ecocêntrico é impossível sem essa mudança de consciência, mas por si só não será suficiente. O que realmente se faz necessário é uma revolução tríplice : um processo de inversão individual, relacional e institucional, ou seja, uma transformação completa das práticas atuais, de dentro para fora e de fora para dentro.

A inversão individual significa abrir nossos pensamentos, sentimentos e vontade para que possamos agir como instrumentos para o futuro que já anseia emergir.

A inversão relacional significa abrir nossas capacidades comunicativas e mudar o foco da conformidade e da defensiva para o diálogo generativo, para que os grupos possam entrar em um espaço de pensamento conjunto, de criatividade coletiva e fluidez.

A inversão institucional significa abrir as geometrias tradicionais de poder, caracterizadas por hierarquias centralizadas e competição descentralizada, e reorientar as instituições para relações cocriativas entre as partes interessadas em ecossistemas que possam gerar bem-estar para todos.

Promover essas inversões exige novos tipos de infraestruturas de inovação capazes de desenvolver capacidades de liderança coletiva em larga escala. Muitas pessoas acreditam que o que falta para impulsionar as sociedades rumo a uma nova economia é apenas um conjunto de ideias e propostas políticas melhores do que as que já temos. Mas não é bem assim. Precisamos também de novas estruturas e tecnologias que permitam aos grupos transcender seus padrões habituais de pensamento e práticas para cocriar uma economia ecocêntrica.

Essas infraestruturas incluem espaços para reunir as partes interessadas em esforços para co-iniciar novos sistemas, e também:

- “Co-sensoriamento”, ou ir a lugares que nos permitem ver o sistema pelas bordas – se ouvidos com a mente e o coração abertos, eles guardam as chaves de ouro para o futuro;

- “co-inspirar”, ou seja, criar canais para conectar-se às fontes de criatividade;

- “prototipagem”, ou seja, explorar o futuro fazendo as coisas no presente de maneiras muito diferentes; e

- “Co-moldar” os espaços nos quais esses protótipos podem ser incorporados e ampliados.

Dentre essas diversas infraestruturas, as de co-sensoriamento e co-inspiração são particularmente subdesenvolvidas na sociedade atual. Tentar impulsionar a inovação social apenas por meio de prototipagem e ampliação de escala é como construir uma casa sem alicerces. É por isso que tantos esforços atuais fracassam: porque ignoram as condições mais profundas do campo social (as mentalidades, atitudes e intenções) e se concentram apenas na superestrutura de incentivos e instituições. Sem uma mudança fundamental de consciência, será impossível sustentar uma economia ecocêntrica.

Uma renovação profunda desse tipo, nos níveis pessoal, social e global, é crucial para o futuro do nosso planeta. O que precisamos para sustentar essas renovações são agentes de mudança dispostos a liderar a partir desse futuro emergente: líderes que estejam dispostos a se abrir, aprender e praticar a jornada do pensamento egocêntrico para o pensamento ecossistêmico. Já temos muito do que precisamos à mão, na forma de exemplos práticos, ferramentas e estruturas. O que falta é a visão cocriativa e a vontade coletiva para tornar essa revolução uma realidade.

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