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É possível Cultivar hábitos virtuosos?

O comprador cobiça o item caro e se preocupa vagamente com a fatura do cartão de crédito. Quem está de dieta contempla a deliciosa sobremesa. O ex-viciado olha com saudade para o cigarro, a garrafa ou a droga, relembrando as sensações agradáveis, mas também os problemas e as promessas. O homem e a mulher se preparam para se beijar, aquecidos pelo álcool e pela nova intimidade, mas são impedidos pelos pensamentos sobre seus respectivos cônjuges em casa. O procrastinador pensa na tarefa difícil e preocupante que tem pela frente, mas observa que o prazo ainda é daqui a uma semana, então talvez não haja problema em deixá-la para o dia seguinte. Tais dilemas morais e práticos permeiam o cotidiano.

Fazer o que é certo exige um esforço árduo para resistir às tentações sedutoras do vício. Você se esforça para resistir aos impulsos egoístas e se empenha em cumprir o que o dever moral prescreve. A virtude é um trabalho árduo.

Ou será que não? Será que a virtude poderia se tornar um hábito — isto é, uma tendência relativamente fácil e automática de fazer o que é moralmente correto, com o mínimo de esforço interno?

A resposta para essa questão, crucial para a compreensão e o aprimoramento do nível moral da humanidade, está emergindo de pesquisas científicas sobre força de vontade. Um estudo recente, no qual duzentos cidadãos alemães usaram bipes durante uma semana e, em intervalos aleatórios, relataram seus desejos naquele momento, revelou uma descoberta surpreendente. Os pesquisadores classificaram as pessoas em dois grupos: aquelas com autocontrole relativamente bom e aquelas com autocontrole relativamente ruim, com base em questionários sobre suas vidas e hábitos. Uma previsão bastante óbvia era que as pessoas com bom autocontrole resistiriam aos desejos com mais frequência do que as pessoas com pouco autocontrole. Afinal, é para isso que serve o autocontrole, resistir aos desejos, certo?

Mas os resultados apontaram fortemente na direção oposta. Pessoas com bom autocontrole eram menos propensas a resistir a desejos no seu dia a dia. Como isso é possível? A resposta é que pessoas com bom autocontrole evitam tentações e situações problemáticas, em vez de lutar contra elas. Outras pesquisas confirmaram que o autocontrole funciona de forma mais eficaz por meio do controle de hábitos, em vez do uso da força de vontade para o controle direto das ações no calor do momento.

O autocontrole é por vezes chamado de "músculo moral" porque proporciona a capacidade básica de fazer o que é certo. A maioria dos vícios e pecados envolve falhas de autocontrole, e a maioria das virtudes indica um bom autocontrole. Até recentemente, era comum pensar no autocontrole em termos de feitos heroicos e isolados de força de vontade, como resistir a uma forte tentação. Mas muitas das novas evidências sugerem que o autocontrole é mais eficaz quando opera por meio de hábitos. As pessoas usam seu autocontrole para quebrar maus hábitos e estabelecer bons, e então a vida pode fluir de forma tranquila e bem-sucedida, com baixos níveis de estresse, arrependimento e culpa.

Vista sob essa perspectiva, a virtude é melhor alcançada quando se exerce autocontrole para estabelecer hábitos de bom comportamento. Parte da razão é que usar a força de vontade para resistir à tentação é uma tarefa árdua e custosa, com resultados incertos. Os hábitos são muito mais confiáveis.

Duas décadas de pesquisa em laboratório comprovaram que a força de vontade é limitada e que exercer autocontrole para resistir a impulsos ou mudar ações a esgota. Como todos os seres vivos, os humanos naturalmente buscam conservar sua energia, e, portanto, exercer autocontrole para resistir à tentação ou trilhar o caminho da virtude encontra uma resistência natural (que alguns moralistas chamariam de preguiça, ou pior). E se a tentação ou o impulso surgir quando sua força de vontade já estiver esgotada por outras demandas, suas chances de resistir diminuem e você acaba fazendo algo de que se arrependerá. É por isso que você não deve planejar alcançar a virtude confiando na força de vontade para superar crises, tentações e outras situações problemáticas. A força de vontade oscila e você não pode contar com o suficiente para sempre tê-la.

Em vez disso, se você usar a força de vontade para estabelecer hábitos virtuosos, o perigo de sucumbir ao impulso ou à tentação é reduzido. A psique humana é bem projetada para adquirir hábitos (bons e ruins). Fazer algo novo e diferente exige esforço e atenção, e às vezes muita reflexão e emoção. Em contraste, fazer algo por hábito não exige nada disso, ou no máximo uma quantidade muito pequena. Para conservar a energia mental e física limitada que as pessoas têm, a natureza nos projetou para converter esforços novos em hábitos fáceis. Isso ocorre ao longo do tempo, com a prática repetida. Você se lembra das suas dificuldades iniciais com uma bicicleta, uma prancha de surfe, um teclado e mouse de computador, uma raquete de tênis? No entanto, depois de repetições suficientes, você usa esses mesmos itens de forma eficiente e eficaz, quase sem pensar ou cometer erros. A capacidade da mente humana de converter ações difíceis em hábitos fáceis e habilidosos é notável.

Hábitos virtuosos podem ser uma dádiva divina. Sentado à mesa enquanto o garçom começa a servir o vinho, observei e admirei como o alcoólatra em recuperação cobria habilmente o copo com a mão, sinalizando "não para mim". Talvez não muito tempo atrás, dizer não lhe exigia muita luta e angústia. Se cada oferta de vinho lhe custasse o mesmo esforço que no primeiro dia de sobriedade, é bem provável que ele tivesse recaído inúmeras vezes. Mas tudo fica mais fácil, graças ao milagre do hábito. É claro que o hábito não surgiu por mágica, desejo ou determinação. Foi preciso força de vontade para tornar as recusas um hábito.

Até que ponto podemos confiar em hábitos virtuosos? Os desejos mais fortes e as tentações mais problemáticas provavelmente não podem ser vencidos apenas por hábitos. Mas cultivar hábitos virtuosos em diversas áreas pode preservar sua força de vontade para quando você realmente precisar dela. Isso explica os problemas de pessoas com autocontrole caracteristicamente fraco. Elas gastam sua força de vontade em coisas comuns, como decidir o que comer e se devem ou não expressar algum pensamento raivoso. Quando surge uma tentação mais séria, sua força de vontade está esgotada e elas sucumbem. Em contraste, pessoas com hábitos virtuosos conservam sua força de vontade para quando realmente precisam dela.

De fato, é questionável se resistir a uma forte tentação ou impulso pode se tornar um hábito completamente natural. Hábitos virtuosos são muito mais eficazes em evitar essas tentações e impulsos do que tentar reprimi-los depois que surgem.

Para entender isso, é necessário refletir sobre se a tentação está dentro ou fora da pessoa. Quase certamente, está em ambos os lados. Embora possa haver alguns impulsos que surgem inteiramente do interior do corpo, muitos mais são desencadeados por objetos externos. Contudo, esses mesmos objetos não despertam o mesmo desejo em todas as pessoas. Eles só tentam aqueles que já o possuem. Assim, o problema — um impulso tentador de fazer algo contra os próprios valores — surge principalmente quando os impulsos internos encontram oportunidades para satisfazê-los. É preciso tanto uma pessoa com a inclinação adequada quanto uma situação propícia para criar a tentação máxima. Em tais situações, os hábitos podem ajudar em certa medida, mas a força de vontade será quase certamente necessária. Nesse ponto, pode ser tarde demais para que os hábitos sejam de grande ajuda.

A solução não é chegar a esse ponto. Hábitos virtuosos podem ser mais eficazes para evitar a tentação do que para resistir a ela. Os desejos internos não podem ser eliminados. (Provavelmente por isso muitos dos grandes santos da história se descreveram como pecadores terríveis. Eles sabiam que tinham muitos desejos pecaminosos. Mas a virtude não é a ausência do desejo de pecar — é a ausência do pecado apesar do desejo de pecar!) Pode-se impedir que inclinações e fraquezas internas se transformem em desejos e compulsões desenfreadas, evitando as circunstâncias externas que as desencadeiam. O alcoólatra em recuperação sabe que deve evitar bares. O veterano em dietas sabe que não deve manter alimentos calóricos em casa. Nesses casos, mesmo que o impulso interno ocasionalmente produza um desejo forte e específico, a falta de oportunidade resolve a situação. Pode haver um momento de fraqueza, quando a força de vontade está baixa e doces lembranças levam a desejos, mas se não houver doces, cigarros ou bebidas disponíveis, a virtude permanece intacta, apesar de a pessoa estar momentaneamente disposta a ceder.

Jogar como goleiro no time de futebol do meu colégio me ensinou uma lição valiosa que se aplica aqui. As pessoas me diziam que a função do goleiro era bloquear chutes, então eu praticava mergulhos e saltos para bloquear as bolas chutadas em minha direção. Mas percebia que não estava progredindo muito. Concluindo que meu técnico era inútil, fui assistir aos jogos e observei como os melhores goleiros jogavam. Notei que eles não bloqueavam muitos chutes. Em vez disso, impediam que os chutes acontecessem. Eles avançavam silenciosamente enquanto o outro time trocava passes, aguardando o momento exato para interceptar uma bola antes mesmo que ela fosse chutada com força em direção ao gol. As estatísticas pós-jogo podiam mostrar apenas alguns chutes bloqueados, sugerindo que o goleiro não tinha feito muito, mas a verdade era que ele havia impedido mais chutes do que bloqueado. E parecia muito mais fácil do que ficar esperando no gol e tentar parar uma bola que vinha em direção ao gol com toda a força de um chute potente.

Da mesma forma, pessoas com bom autocontrole alcançam a virtude de maneira aparentemente fácil e sem grandes alardes. Podemos reservar nossa admiração para os casos mais dramáticos, em que alguém heroicamente faz o que é certo, apesar da forte tentação de fazer o contrário. Mas a virtude cotidiana é melhor alcançada não por meio de tais feitos heroicos de força de vontade, mas sim evitando tais situações em primeiro lugar. Ao reunir muitos pequenos hábitos, especialmente para evitar tentações e problemas, é possível viver uma vida mais virtuosa.

Questões para discussão

1. Existem formas de comportamento moral e virtuoso que não envolvem autocontrole?

2. As pessoas alguma vez se recuperam completamente do vício?

3. Você tem alguma sugestão para criar filhos com força de vontade e bons hábitos?

Resumo da discussão

Meu ensaio sobre a ideia de hábitos virtuosos provocou uma discussão animada. Dois temas principais instigantes emergiram. Alguns focaram em questões práticas, como a melhor forma de conservar a força de vontade e permitir que as pessoas obtenham os resultados mais positivos (virtuosos) com força de vontade limitada. Outros se concentraram no significado de moralidade e virtude.

Primeiramente, gostaria de abordar o significado de moralidade e virtude. A questão aqui é se realmente se pode considerar virtude o fato de as pessoas a alcançarem por meio de hábitos, como evitar a tentação. De certa forma, obtém-se resultados virtuosos de maneira fácil. A pessoa que consegue evitar a tentação possivelmente não merece os mais altos níveis de admiração moral. Mesmo nossas decisões pragmáticas sobre confiar ou não em alguém ou formar um relacionamento com essa pessoa reconhecem a diferença, visto que alguém que nunca se comportou mal, mas nunca foi tentado a fazê-lo, não demonstrou, de fato, possuir um caráter moral forte. A verdadeira virtude aparentemente requer alguma luta interna e um certo grau de escolha ativa de ações que trazem menos benefícios, menos prazer ou mais desconforto do que outras opções disponíveis.

A questão mais profunda e complexa subjacente a essa discussão é: qual a essência da moralidade? Há pelo menos dois caminhos principais para encontrar uma resposta. Um deles envolve provar o próprio caráter. Lembro-me de ter perguntado certa vez a uma amiga judia ortodoxa por que ela continuava a seguir as diversas regras de kashrut, algumas das quais dificultam a vida e não conferem nenhum benefício real à saúde, e a resposta dela foi que manter a alimentação kosher era bom para a autodisciplina. Nossas pesquisas corroboram essa resposta: as pessoas provam a si mesmas e se fortalecem seguindo até mesmo regras completamente arbitrárias, e isso pode trazer benefícios e melhorias em outros aspectos que realmente importam. Essa também era a justificativa para os esportes na minha época de escola, especialmente o uso dos recursos escolares para a prática esportiva: supostamente, os esportes constroem o caráter, e isso vem da conformidade com regras muitas vezes arbitrárias.

No entanto, há algo de circular nesse argumento, se fosse só isso. Por que precisaríamos de autodisciplina para nos comportarmos moralmente, se o propósito da moralidade fosse apenas aprimorar e demonstrar a autodisciplina? Embora uma concepção puramente funcional da moralidade possa deixar algo de fora, também se deixa de lado algo se ignorarmos suas funções. A moralidade desempenha funções úteis: ajuda as pessoas a viverem juntas em harmonia e cooperação, possibilitando que os sistemas sociais tragam benefícios a todos. E, nesse contexto, o que importa é o comportamento de tratar bem os outros, e não o esforço interno necessário para isso.

Havia também uma desconexão entre alguns dos exemplos. Sim, a pessoa que teve a sorte de evitar a tentação não provou ser virtuosa. Mas não era isso que eu estava propondo. A pessoa que evita a tentação por meio de um planejamento prudente e uma gestão cuidadosa das situações é bem diferente da pessoa que nunca viu um donut (para usar um dos exemplos nos comentários). A pessoa que organiza bem a vida para evitar a tentação conseguiu o melhor dos dois mundos: resultados virtuosos bem merecidos e a ausência de uma luta interna desgastante. Essa pessoa me parece um modelo ideal. Se todos se comportassem dessa maneira, a sociedade prosperaria.

Isso nos leva à segunda questão, ou seja, a pragmática da virtude. É também nesse ponto que a psicologia pode dar uma contribuição mais substancial do que no debate sobre o significado mais profundo da virtude moral. Muitos comentários ofereceram sugestões perspicazes sobre o processo de alcançar a virtude, especialmente em relação ao uso da propensão da mente para formar hábitos. Eduque as pessoas sobre quais tentações são mais difíceis de resistir e quais circunstâncias aumentam as chances de ceder a elas. Aprenda a encarar a virtude como algo que você simplesmente faz, em vez de torná-la uma escolha diária ou constante. Compreenda as influências sociais, como o fato de ser mais difícil manter a virtude quando outros se entregam ao vício, ou o fato de que as pessoas podem ser mais motivadas a fazer coisas que beneficiam os outros do que coisas que beneficiam apenas a si mesmas. Concentre a energia no desenvolvimento de hábitos em vez de resistir à tentação e saiba como os hábitos funcionam (por exemplo, como um comentarista apontou, os hábitos virtuosos são frequentemente perdidos quando se viaja, longe da rotina normal e dos estímulos que nos apoiam).

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COMMUNITY REFLECTIONS

1 PAST RESPONSES

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Kristin Pedemonti Dec 19, 2016

Excellent food for thought, especially at this time of year. thank you.