Back to Stories

Mirtilos E a Arte De Estar Presente

reflexões sobre a natureza Quando as frutas estão maduras, sempre existe a tendência de apressar a colheita. Alanda Greene compartilha sua experiência de ter uma atitude de serenidade e estar presente no momento, em vez de se apressar para terminar a tarefa.

LIÇÕES DO JARDIM

Mais do que com qualquer outra fruta no jardim, colher mirtilos evoca uma sensação de urgência. Sinto isso ao ver os cachos de orbes azul-escuras, e depois outro cacho e outro. A sensação é: depressa, há tantos, há tanto para fazer, e há mais ali, e ali atrás de mim, e naquele arbusto. Outra sensação também surge: a de que, de repente, há tanta coisa para fazer, e não há tempo suficiente. Tenho que colhê-los e congelá-los, ou transformá-los em geleia, ou separá-los para comer mais tarde, ou assá-los em algo delicioso, ou entregá-los a um vizinho. Há um leve pânico que acompanha uma tarefa que evoca pressão de tempo.

Devo admitir que suspeito que, assim como meias perdidas na lavanderia, essas frutinhas podem entrar e sair de outras dimensões. Suspeitei disso pela primeira vez com as framboesas, quando as colhia. Eu me ajoelhava, separava os ramos, olhava para a esquerda e para a direita, e para cima e para baixo. Depois de percorrer a fileira até a próxima área, às vezes olhava para trás, para onde tinha estado, e lá encontrava framboesas grandes, vermelhas e maduras penduradas. Estavam escondidas em outra dimensão! É a única explicação. Elas não conseguem escapar se eu mantiver o olhar fixo nelas, segurá-las no lugar e colhê-las, mas se eu desviar o olhar para terminar a colheita, as frutinhas desaparecem.

Para ser sincera, às vezes os mirtilos me fazem sentir
Igualzinho a uma criança numa loja de doces.

pensamentos-na-mente-frutas

Portanto, com esses mirtilos, quando um cacho maduro surge bem na borda do meu campo de visão, preciso me virar e colhê-los. Mas então outro cacho invisível aparece. Segure esse. E onde eu estava? Onde estavam os outros mirtilos? Sumiram. Preciso agir rápido para pegá-los antes que escapem.

Para ser sincera, às vezes os mirtilos me fazem sentir como uma criança numa loja de doces. Lembro-me de levar minha sogra de 93 anos para fazer compras numa cadeira de rodas. Fazer compras era uma atividade que sempre lhe dava muito prazer e fazia muito tempo que ela não saía de casa. Ela ficou encantada. Sempre amante de chocolate, as prateleiras com várias barras e caixas de chocolate na altura dos olhos despertaram aquele brilho em seus olhos. Ela estendia a mão e pegava tudo o que estava ao seu alcance. Com pequenos suspiros, sua mão indo para um lado e para o outro, e apesar dos meus esforços para não a incentivar deliberadamente, ela tinha o colo transbordando de vários tesouros de chocolate quando chegamos ao caixa. Reconheço algo desse encanto, o chamado dessas delícias doces, a sensação de abundância. Logo tenho um recipiente transbordando de mirtilos e a vontade de continuar colhendo permanece.

Escolher com total concentração no momento presente muda tudo.
Após algum tempo, surge uma suavidade.
Continuo a escolher, mas há momentos de absorção atemporal…
Tudo parece perfeito. Alguma magia aconteceu na minha mente.

Hoje me deparo com o desafio do imperativo dos mirtilos. "Não!", digo, quando o sentimento surge, quando me sinto sobrecarregada com tantos mirtilos precisando de atenção, clamando: "colha-me, colha-me".

“Não, não precisamos ter pressa. Temos todo o tempo do mundo. Este ato, neste exato momento, é simplesmente o certo. Nunca será mais valioso do que agora, nunca será mais completo, nunca será mais significativo do que estar presente com o que estou fazendo, em relação aos mirtilos, em lembrança e gratidão.”

Com essa abordagem, tudo muda. A experiência com essas frutinhas, seu formato e aroma, sua beleza e abundância nos talos de folhas brilhantes, é mais vibrante e completa. Hoje, não encarei a colheita como mais uma tarefa na lista interminável de coisas a fazer. A lista faz parte de ter uma horta, quando tudo amadurece ao mesmo tempo, quando o tempo da colheita segue seu próprio ritmo e não a minha agenda imposta. Sim, preciso colher os mirtilos quando estiverem maduros, pois eles não respondem a uma data imaginária daqui a alguns dias, quando posso agendar uma brecha entre amoras e brócolis.

Mas escolher com total concentração no momento presente muda tudo.

Depois de algum tempo, uma suavidade surge. A beleza dessas esferas de um azul profundo e gelado, a borda crenulada em um dos polos, seu sabor e a maciez na minha língua… tudo começa a me influenciar, a acalmar minha mente como uma voz suave acalma um cavalo arisco. Continuo colhendo, mas há momentos de absorção atemporal, contemplando a imagem das frutinhas redondas nas folhas verdes, os gorjeios e choramingos das famílias de chapins-azuis recém-nascidas na orla da floresta, os sussurros das folhas de avelã movidas pela brisa suave. Tudo tem um toque de perfeição. Alguma magia atuou na minha mente.

Share this story:

COMMUNITY REFLECTIONS

2 PAST RESPONSES

User avatar
transcending Apr 5, 2017

Yes, thank you: "...the beauty of these deep frosty blue spheres, the crenulated rim on one
pole, their flavor and squishy softness on my tongue… it all starts to
work on me, starts to gentle my mind..." You inspired me: I went and got a few from the refrigerator, and ate them mindfully, savoring each moment of that sweet release of "blueberryness", and it was right. Until the next moment: shipped over a thousand miles to our co-op...in a clear plastic container...picked by a Mexican who may not have the luxury of unhurriedness...hauled to our house in a gasoline burning car...stored in a fridge run on coal-powered electricity. Sorry, next generations, for my weak humanness, but, damn, those blueberries tasted good in winter! Ah...desire.

User avatar
Kristin Pedemonti Apr 2, 2017

Thank you. I needed a reminder of calm presence today and this perfectly fit.