A sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas sim uma propriedade de toda uma rede de relações.
É uma prática comunitária. Esta é a profunda lição que precisamos aprender com a natureza. A forma de sustentar a vida é construir e nutrir a comunidade. Uma comunidade humana sustentável interage com outras comunidades — humanas e não humanas — de maneiras que lhes permitem viver e se desenvolver de acordo com suas naturezas. Sustentabilidade não significa que as coisas não mudam. É um processo dinâmico de coevolução, e não um estado estático.
Devido à estreita ligação entre sustentabilidade e comunidade, os princípios básicos da ecologia também podem ser compreendidos como princípios comunitários. Em particular, podem servir como princípios orientadores para a construção e o desenvolvimento de comunidades de aprendizagem sustentáveis. São extremamente relevantes para assumir posições de liderança e promover mudanças sistêmicas em nossas escolas.
Comunidades de Prática
A rede tem sido reconhecida como o padrão básico de organização de todos os sistemas vivos. Os sistemas biológicos são redes de reações químicas; os sistemas sociais são redes de comunicação. Nos últimos anos, as redes tornaram-se um foco importante de atenção não apenas na ciência, mas também na sociedade em geral e em toda uma cultura global emergente.
A internet tornou-se uma poderosa rede global de comunicações, e cada vez mais empresas hoje em dia se organizam como redes descentralizadas de unidades menores. Redes semelhantes existem entre organizações sem fins lucrativos e não governamentais. De fato, o "trabalho em rede" tem sido uma das principais atividades de organizações políticas de base há muitos anos.
Existem também muitas redes informais dentro das organizações humanas. Os teóricos organizacionais denominaram essas redes de "comunidades de prática", nas quais as pessoas constroem relacionamentos, ajudam-se mutuamente e atribuem significado às atividades diárias em um nível pessoal.
Dentro de cada organização existe um conjunto de comunidades de prática interconectadas. Quanto mais pessoas estiverem engajadas nessas redes informais, e quanto mais desenvolvidas e sofisticadas forem essas redes, melhor a organização será capaz de aprender, responder criativamente a novas circunstâncias, mudar e evoluir. Em outras palavras, a vitalidade da organização reside em suas comunidades de prática. Essas considerações implicam que a maneira mais eficaz de aprimorar o potencial de criatividade e aprendizado de uma organização é fortalecer suas comunidades de prática.
O surgimento da novidade
Se a criatividade e o potencial de aprendizagem da organização residem em suas comunidades de prática, como esses processos se manifestam de fato nessas redes e comunidades vivas?
Para responder a essa pergunta, preciso me referir ao fluxo de energia e matéria em todas as redes vivas. Nas redes humanas, isso corresponde a um fluxo de informações e ideias. Em ambos os casos, o sistema precisa estar aberto a esse fluxo de nutrientes para sobreviver. Nos últimos 25 anos, a dinâmica desse fluxo tem sido estudada em grande detalhe. Esses estudos levaram a uma descoberta muito importante, que é a segunda lição da natureza que os líderes da transformação precisam conhecer.
Os sistemas vivos geralmente permanecem em um estado estável, mesmo que energia e matéria fluam através deles e suas estruturas estejam em constante mudança. Mas, de tempos em tempos, um sistema aberto como esse encontra um ponto de instabilidade, onde ocorre uma ruptura ou, mais frequentemente, o surgimento espontâneo de novas formas de ordem.
Essa emergência espontânea de ordem em pontos críticos de instabilidade, frequentemente chamada simplesmente de "emergência", é uma das características distintivas da vida. Ela tem sido reconhecida como a origem dinâmica do desenvolvimento, da aprendizagem e da evolução. Em outras palavras, a criatividade — a geração de novas formas — é uma propriedade fundamental de todos os sistemas vivos.
Em uma organização humana, o evento que desencadeia o processo de emergência pode ser um comentário casual, que pode até não parecer importante para quem o fez, mas que é significativo para algumas pessoas em uma comunidade de prática. Por ser significativo para elas, essas pessoas irão disseminar a informação rapidamente pelas redes da organização.
À medida que circula por diversos circuitos de feedback, a informação pode ser amplificada e expandida, a tal ponto que a organização não consegue mais absorvê-la em seu estado atual. Quando isso acontece, atinge-se um ponto de instabilidade. O sistema não consegue integrar a nova informação à sua ordem existente; é forçado a abandonar algumas de suas estruturas, comportamentos ou crenças. O resultado é um estado de caos, confusão, incerteza e dúvida. Desse estado caótico, emerge uma nova forma de ordem, organizada em torno de um novo significado. A nova ordem não foi concebida por nenhum indivíduo, mas é o resultado da criatividade coletiva da organização.
Emergência e Design
Em todo o mundo vivo, a criatividade da vida se expressa através do processo de emergência. As estruturas que são criadas — estruturas biológicas de organismos vivos e estruturas sociais em comunidades humanas — podem ser apropriadamente chamadas de "estruturas emergentes". Antes da evolução humana, todas as estruturas vivas do planeta eram estruturas emergentes. Com a evolução humana vieram a linguagem, o pensamento conceitual e todas as outras características da consciência. Isso permitiu aos humanos formular objetivos e estratégias e, assim, criar estruturas por meio de um projeto.
As organizações humanas sempre contêm estruturas tanto planejadas quanto emergentes. As estruturas planejadas são as estruturas formais da organização, descritas em seus documentos oficiais. As estruturas emergentes são criadas pelas redes informais e comunidades de prática da organização. Os dois tipos de estruturas são muito diferentes, e toda organização precisa de ambos. As estruturas planejadas fornecem as regras e rotinas necessárias para o funcionamento eficaz. Elas proporcionam estabilidade.
Por outro lado, as estruturas emergentes proporcionam novidade, criatividade e flexibilidade. Elas são adaptáveis, capazes de mudar e evoluir. No complexo ambiente organizacional atual, as estruturas puramente planejadas não possuem a capacidade de resposta e aprendizado necessárias.
A questão não é descartar estruturas planejadas em favor de estruturas emergentes. Precisamos de ambas. Esta é a terceira lição de liderança da natureza. Em toda organização humana, existe uma tensão entre suas estruturas planejadas, que incorporam relações de poder, e suas estruturas emergentes, que representam a vitalidade e a criatividade da organização. O desafio para os líderes é encontrar o equilíbrio certo entre a criatividade da emergência e a estabilidade do planejamento.
Um Novo Tipo de Liderança
A compreensão da importância da emergência para a criatividade de uma organização humana levou à exploração de um novo tipo de liderança. A ideia tradicional de líder é a de uma pessoa capaz de ter uma visão, articulá-la com clareza e comunicá-la com paixão e carisma.
Isso ainda é importante, mas existe também outro tipo de liderança, que consiste em facilitar o surgimento da novidade. Esta é a nossa quarta lição da natureza. Facilitar o surgimento significa criar condições em vez de dar instruções. Significa usar o poder da autoridade para capacitar os outros. Ambos os tipos de liderança têm a ver com criatividade. Ser um líder significa criar uma visão, ir aonde ninguém jamais foi. Significa também criar um espaço para que a comunidade como um todo crie algo novo.
Para facilitar a emergência de forma eficaz, os líderes comunitários precisam reconhecer e compreender as diferentes etapas desse processo vital fundamental. A emergência requer uma rede ativa de comunicação. Facilitar a emergência, portanto, significa, antes de tudo, construir e nutrir essas redes de comunicação.
Além disso, precisamos lembrar que o surgimento da novidade é uma propriedade dos sistemas abertos, o que significa que a organização precisa estar aberta a novas ideias e novos conhecimentos. Facilitar o surgimento da novidade inclui criar essa abertura — fomentando uma cultura de aprendizado na qual o questionamento contínuo seja incentivado e a inovação seja recompensada.
A experiência da instabilidade crítica que precede o surgimento da novidade pode envolver incerteza, medo, confusão ou insegurança. Líderes experientes reconhecem essas emoções como partes integrantes de toda a dinâmica e criam um clima de confiança e apoio mútuo.
Durante o processo de mudança, algumas das estruturas antigas podem ruir, mas se o clima de apoio e os ciclos de feedback na rede de comunicação persistirem, é provável que surjam estruturas novas e mais significativas. Quando isso acontece, as pessoas costumam sentir uma sensação de admiração e euforia, e agora o papel do líder é reconhecer essas emoções e proporcionar oportunidades para celebrá-las.
Os líderes precisam ser capazes de reconhecer as novidades emergentes, articulá-las e incorporá-las ao design da organização. Nem todas as soluções emergentes serão viáveis, contudo, e, portanto, uma cultura que apoia a emergência deve incluir a liberdade para cometer erros. Em tal cultura, a experimentação é incentivada e o aprendizado é valorizado tanto quanto o sucesso.
Conclusão
Dar vida às organizações humanas, fortalecendo suas comunidades de prática, não só aumenta sua flexibilidade, criatividade e potencial de aprendizado, como também enaltece a dignidade e a humanidade dos indivíduos que as compõem, à medida que se conectam com essas qualidades em si mesmos. Em outras palavras, o foco na vida e na auto-organização empodera o indivíduo. Cria ambientes de trabalho e aprendizado mental e emocionalmente saudáveis, nos quais as pessoas se sentem apoiadas na busca de seus objetivos pessoais e não precisam sacrificar sua integridade para atingir as metas da organização.
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