Baba Mandaza Augustine Kademwa, do Zimbábue, nasceu Svikiro (em shona, sua língua nativa), um portador de muitos espíritos da terra e da água, e Mondhoro (Leão), alguém que está em constante oração em favor dos outros. Ele é guiado pelos espíritos da água e do leão. Como um receptáculo dos Espíritos, Mandaza recebe visões e sonhos, faz oferendas, realiza rituais de cura e serve como mensageiro dos Ancestrais. Mandaza é um curandeiro tradicional africano e a voz da Mãe Natureza, iniciado na tradição dos njuzi, os espíritos da água. Mandaza carrega consigo, em seu coração, a tradição espiritual centro-africana de cura e pacificação.
—Thanissara
A entrevista a seguir foi realizada no início deste ano (2019) no Dharmagiri Sacred Mountain Retreat (dharmagiri.org), o centro de retiro budista fundado em 2000 na fronteira entre o Lesoto e a África do Sul pelos professores de meditação Kittisaro e Thanissara, que se formaram como monges na Tradição da Floresta de Ajahn Chah. Mandaza atua como Ancião Espiritual e Guia do Dharmagiri.
—Os Editores, Revista Parabola

Mandaza em Dharmagiri. Fotografia de Thanissara
Thanissara : O que é importante entendermos sobre a Terra como Deusa?
Mandaza : Eu gosto de chamá-la de Criadora. A humanidade se esqueceu de onde viemos. Na verdade, viemos da Terra. Essa é a verdade que a humanidade esqueceu. Ela é a Mãe Terra. Ela é a Criadora. Ela é a doadora de tudo. De tudo que conhecemos. Você está segurando uma xícara de chá em suas mãos. Essa xícara veio da Mãe Terra. Você está vestindo roupas quentes porque está frio; todas essas roupas vieram da Mãe Terra. E seu corpo é da Mãe Terra. Quando este corpo deixa a alma, ele retorna à sua mãe. O que vem da Mãe Terra retorna à Mãe Terra.
Não sei de onde surgiu essa ideia de nos separarmos da Mãe Terra. Não sei qual o propósito de tentar separar os humanos da Mãe Terra. A terra é vida. É a Árvore.
da Vida. Se interferirmos na Árvore da Vida, não haverá vida na Terra. Somos incapazes de cuidar da terra, a terra cuida de nós. De muitas formas, de muitas maneiras. Mas os humanos pensam que são donos da terra. Como a possuímos, podemos controlá-la. É isso que pensamos, que podemos fazer qualquer coisa com a terra. É isso que nos fazem acreditar. Essa é uma crença e um pensamento completamente errados.
Estamos certos quando a chamamos de “Mãe Terra”. Mãe de quem? Ela não é apenas a mãe dos humanos, ela é a mãe de todas as coisas. Basta ouvir o seu coração, fechar os olhos e pensar nesta terra que chamamos de Mãe Terra; você começará a perceber quão grande ela é. Como ela nos possui a todos. Não podemos curar a Mãe Terra, somos incapazes de curá-la; ela se cura sozinha. Ela é quem pode nos curar. Vejo a terra como um templo sagrado. A terra é santidade e plenitude, porque ela é tudo. Ela é a Unidade sagrada; por isso ela é um mistério. Estudar geografia nos dará pouca informação sobre esta mulher que chamamos de Mãe Terra. Somente aqueles que têm os olhos da terra podem verdadeiramente compreendê-la.
Você sabe que ela é o espírito da paz, o espírito da verdade, o espírito da justiça, o espírito da verdadeira liberdade. Ela é a Mãe Medicina, que pode curar qualquer doença que os médicos ocidentais não conseguem tratar, que até mesmo os curandeiros tradicionais não conseguem tratar. Essa medicina que chamamos de Mãe Terra pode lidar com tudo. Ela é tão importante assim. Mexer com ela é mexer com as nossas próprias vidas. Ela tem muitas vidas. Se perdermos a nossa única vida, não podemos ter outra, mas ela pode. É por isso que ela é um mistério. Ela é uma maravilha, é por isso que ela se autodenomina "Eu Sou o Eu Sou".
Só agora nos damos conta de sua existência. Por que estamos tentando nos aproximar da terra agora? O que deu errado? Declaramos nossa independência dela, ela estava observando, e seu comentário foi: "Só quero ver até onde vocês vão chegar sem mim". Ela não está nos procurando, nós é que estamos procurando por ela agora. Mas por que agora? Ela é o remédio da vida do qual nos separamos, e por isso nem tudo está bem em nosso mundo humano. É por isso que estamos tentando encontrá-la.
Ela nos observa fazendo o que queremos, independentemente, e não estamos indo a lugar nenhum. Estamos girando em círculos ao redor dela. Estamos sentados sobre ela, dormindo sobre ela, caminhando sobre ela. Se ela declarar independência dos humanos, onde vamos ficar? Onde vamos cultivar os alimentos? Onde vamos construir essas belas casas e tudo mais? De onde vamos tirar os minerais, se ela declarar sua própria independência? Precisamos nos conectar com ela para o nosso próprio bem.
Meu alerta é que, se mexermos com essa mulher, estaremos mexendo conosco mesmos. Ela dá abundantemente a toda a criação. Livremente e com amor, ela é a compaixão que buscamos e a paz que almejamos. É verdade que ela é a liberdade que buscamos. Ela é o amor incondicional que buscamos. Ela é a mensagem de esperança para o futuro, ela é a doadora da vida.

T : Isso é tão lindo. Parece que, além de ser criação, ela é um espírito.
M : E ela é um espírito, sim, o espírito de que falamos, o espírito ao qual até demos nomes diferentes, você pode dar-lhe qualquer nome, ela aceita. Algumas pessoas querem se referir a ela como Deus ou Deusa; ela acolhe esses nomes. Mas ela diz: “Eu sou quem eu sou. Eu sou tudo.”
T : Como você se aproxima dela?
M : Ao entendermos quem ela é. No momento em que você entende quem ela é, você se aproxima dela. Ao falarmos sobre ela, nos aproximamos dela e ela ouve. Mas no momento em que a maltratamos, nos distanciamos dela, da Árvore da Vida.
T : Como você entende quem ela é?
M : Vá e fale com ela, do seu jeito. Pode ser pensando nessa mulher durante suas sessões de ioga, suas caminhadas na natureza. Pense nela e você se aproximará muito dela. Ela falará com você. Ela fala todas as línguas, conhecidas e desconhecidas. É por isso que ela é um mistério.
T : Será que a ouvimos em nossos corações?
M : Sim, precisamos. Precisamos compreendê-la, não com a cabeça, mas com o coração, isso é importante. Quando você menciona o nome Mãe Terra, precisa senti-lo no coração. Então ela se torna você e você se torna ela.
T : Então nós a convidamos para entrar.
M : É só convidá-la. É só abrir a porta do seu coração, e ela entrará graciosamente.
T: Isso pode mudar tudo.
M : E ela muda tudo. Você começa a se parecer com ela, não apenas a se parecer com ela, mas você se torna ela. Então, quando você se torna ela, começa a cuidar bem de si mesma. Mas, no momento em que você ainda está separada dela, você a maltrata…
T : E abuse de si mesmo.
M : Você se maltrata. Esta é a mensagem misteriosa que ela nos dá, a mensagem de cura. O único remédio que pode trazer a paz mundial. Não vem mais da Torá, do Alcorão ou da Bíblia, não vem de nenhuma outra cultura que tenhamos criado. Retornamos à verdadeira raiz da criação se amarmos esta mulher, a Terra.
T : Parece que nossa salvação está nesse processo.
M : É exatamente nesse processo [Risos]. Declaramos nossa própria independência dela, estamos nos separando dela. Mas ela é a Unidade — um todo, sagrado, santidade. Se caminharmos com ela, nos tornamos ela e ela se torna nós, curamos tudo no planeta Terra.
T : Parece realmente radical que possamos fazer isso juntos.
M : Sim, mas tudo começa com você, como indivíduo. Torne-se a própria Mãe Terra, e então esta grande Árvore da Vida se expandirá, e nós nos tornaremos uma teia de aranha. Uma teia de aranha começa no centro e cresce. Quem é esse centro? É você, como indivíduo. Você se transformou?
A Mãe Terra consegue se ver em você? Você consegue se ver na Mãe Terra? Se conseguir, então traremos ordem a este mundo.
T: O que ela gostaria de ver em nós?
M : Beleza. Amor. Compaixão. Espírito de partilha. Risos. Paz de espírito. Comer comida boa, comida não contaminada. É isso que ela quer ver em nós. Mas neste momento, quando ela olha para a humanidade, a começar pela comida que comemos, a água que bebemos, a forma como vivemos, há caos. Ela ainda não está em nós.
T : O que podemos aprender com os animais e como ela se manifesta neles?
M : Se você for visitar o zoológico, a girafa tem uma tromba comprida, ela pode
Ao avistar inimigos à distância, ela avisa os outros animais ao seu redor. Ela, a girafa, consegue saber onde há boa comida. Como seus olhos estão mais acima, ela alerta os outros animais, dizendo: “Vamos por aqui, tem comida”. Será que nós, humanos, agimos como animais? Quem descobriu isso, pertence a mim e à minha família — não ao mundo animal. Durante a estação seca, outros animais conseguem sentir o cheiro da água. Quando eles caminham na direção da água, os outros animais e pássaros os seguem. Será que fazemos isso? Se Mandaza descobre um pedaço de terra com diamantes, eu aviso outras pessoas e digo: “Venham, por favor, vamos compartilhar?” Eu começo a tomar o controle… Chegamos até a criar guerras para impedir que outras pessoas se aproximem daquela terra onde os diamantes estão sendo descobertos, onde o petróleo foi descoberto.
T : O sentimento de posse e controle é uma doença.
M : É uma doença e um mal. Aqueles que têm os olhos da Mãe Terra devem encontrar maneiras de curar essa doença.
T : Como podemos curar isso? É algo tão profundo.
M : Vamos para a natureza e aprenderemos como fazer isso... Somos muito bons em falar sobre o amor pela Mãe Terra, escrevemos revistas sobre a bela Mãe Terra, ensinamos muito sobre a bela Mãe Natureza, mas nunca estamos perto dessa beleza, somos pessoas muito corruptas.
T : Mesmo quando olhamos para ela, a distanciamos de nós.
M : Observamos, conversamos como observadores, esquecendo que também somos natureza. Será que realmente nos amamos? Se não amamos a Mãe Natureza, como podemos nos amar? Por não sabermos nos amar, acabamos cultivando frutos que são plantados hoje, germinados hoje e já estão no mercado hoje. Como isso é possível?
T : Como tentamos controlá-la para nosso próprio benefício, criamos um Frankenstein.
M : Muito verdade. Então, não é mais hora de nós, humanos, apenas lermos sobre a natureza ou assistirmos a filmes sobre a Mãe Terra; é hora de vivermos em harmonia com a natureza, de estarmos muito próximos da Mãe Natureza, da Mãe Terra. Ela é você. E nós somos ela.
T : Mesmo que estejamos na cidade, poderíamos cultivar ervas ou plantas, alguma forma de conexão, plantando sementes ...
M : Olha o que ela faz, mamãe, olha o que ela faz. Há árvores por toda parte nas cidades, o que essas árvores estão fazendo lá? Adubando a Mãe Terra... todo inverno elas devolvem suas folhas para a Mãe Terra.
T : Nós não devolvemos nada.
M : Há injustiça nisso, não há amor pela Mãe Natureza. Sim, oferecemos coisas, na hora do jantar, agradecemos à Mãe Natureza, com palavras, não com ações. Vá e retribua algo à Mãe Natureza, essa se torna a minha poderosa oração.
T : Podemos realizar cerimônias, fazer oferendas.
M : Exatamente, para homenageá-la…
T : Honre-a em seu próprio lugar.
M : Muito verdade.
T : Bem, cada coisa é do jeito dela. Mas ir para a natureza...
M: Entrar em contato com a natureza significa entrar em contato com o seu próprio ser, sim. Você realmente se ama se não se conectar com o seu próprio ser?
T: Podemos fazer isso sozinhos, podemos fazer isso juntos...
M: Sozinhas, podemos fazer juntas, mas juntas ela sorriria ainda mais. Deve ser nossa oração diária, nosso ritual diário. Quando você está na cozinha lavando a louça, você está manuseando, segurando a Mãe Natureza, a água que você usa ali, tudo o que você usa é um presente dela.
T: Com a escassez de água, muitos lugares estão ficando muito secos. Os elementos estão em desequilíbrio.
M: Essa é a linguagem que ela usa, seca, e vocês sabem, vocês estão se prejudicando, a água é o sangue de vocês, como vocês a tratam?
T: O que você prevê para o futuro, para nós e para a Mãe Natureza?
M : Precisamos construir nosso futuro a partir de agora. Fico muito feliz que tenhamos consciência de que nosso futuro é sombrio se não nos conectarmos com a Mãe Natureza. Já que todos sabemos disso, o que exatamente estamos fazendo a respeito? A Mãe Natureza não pode fazer isso por nós. Ela nos deu o conhecimento, a sabedoria, as ferramentas, ela as entregou a nós. O que estamos fazendo com essas ferramentas para construir nosso futuro? Eu sempre digo que você é um ancestral do futuro e o que você sabe hoje será transmitido para as próximas gerações. Seu futuro como um ancestral do futuro te faz feliz agora, com a história que você está escrevendo hoje, a história que você está criando hoje? Se sua história não te faz feliz, você precisa revisitá-la e reescrevê-la, preparar nosso futuro agora.
T : Precisamos escrever novas histórias.
M : Isso mesmo, é o que eu vejo. Se continuarmos poluindo a terra, como ancestral, influenciarei as futuras gerações a poluí-la também. É conhecimento e sabedoria transmitidos de Mandaza para a próxima geração. Portanto, você é o início mais importante de um futuro. Você é o alicerce mais importante para o futuro. Como está esse alicerce que você está construindo agora? Como ele se apresenta? Você está feliz com o alicerce que está construindo agora para o futuro? Ele não vai desmoronar? Não queremos que as coisas desmoronem. Queremos ver um futuro cujo alicerce dure para sempre. Quando cantarmos a nova canção, o futuro poderá ser construído. É isso que eu vejo. É exatamente isso que eu vejo.
Este assunto precisa ser discutido, compartilhado quase que diariamente em nossas famílias, em nossas comunidades, em nossos bairros. Falemos sobre esta Mãe maravilhosa, tragamos-na para nossas casas, para a mesa, para as celebrações.
Reconheçamos o que nos foi dado, cada respiração. Porque a respiração, o ar que respiramos, é ela. Se ela disser: "Não quero respirar através de você", o que acontece? O corpo se vai, a vida se vai, mas ela permanece. Ela é a única criação ou criadora que nunca morre.
T : Temos muita sorte de fazer parte da criação dela.
M : Sim. Se ao menos os humanos soubessem o quão importantes são para a Mãe Natureza.
T : De que maneira?
M : Somos pessoas muito importantes porque somos veículos da Mãe Natureza, criados à sua imagem sagrada. Ela vê em você a cor preta ou branca, ela criou essa cor. Ela é a cor do seu corpo. Essa forma humana, ela é isso. É por isso que ela diz: "Quero me ver em você e quero que você se veja em mim". Quando olho para aquela árvore, preciso ver a Mãe Natureza. Ela é aquele Grande Espírito, aquele lagarto na pedra, ela é aquele espírito belo, aquele hipopótamo, aquele sapo, aquela águia, aquela estrela, aquela lua nova, sabe, ela é todas essas coisas. Nós a amamos? Ela diz: "Amem-me como eu amo vocês". Ela poderia nos esmagar até o nada e não sentiria tristeza, pois não perderia nada.
T : Eu não a culparia depois do que estamos fazendo com ela, mas ela ainda não o faz...
M : Exatamente, mamãe! Ela é tão poderosa e tão única. Então, esta noite, quando você for para a sua cama, olhe para essa sua cama, esses são os presentes da Mãe Natureza, sua linda cama veio dela, seus lindos cobertores, são presentes dela para nós. O cabelo que você está usando, seu chapéu, esses são presentes dela. Eu sou quem eu sou, eu sou tudo. Eu sou paz, eu sou amor, eu sou liberdade, eu sou justiça, eu sou o seu futuro, eu sou o seu começo.
T : Eu sou o seu fim.
M : Estou no seu ponto final, exatamente, sim. É isso que eu vejo, Mamãe, olhe todos os presentes que ela nos deu. Ela diz: “Peguem tudo o que quiserem, mas respeitem o que eu lhes dou”. Nós nos esquecemos de onde viemos, nos esquecemos da mensagem, nos esquecemos do ensinamento. Então precisamos olhar para trás e dizer: “Quero voltar para casa”.
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Now I understand the significance of my MOTHER EARTH
How inspirational and of dire need to give back to Mother Nature, not to mention respect!
How inspirational and of dire importance that we must give back now!