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A Paz é possível: a história extraordinária De Uma Amizade Na prisão.

Claudia e Ciliana durante um dos muitos eventos de reconciliação.

Por mais de 50 anos, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) travam uma guerra de guerrilha por justiça social. Em resposta, os ricos e poderosos criaram forças paramilitares para defender a ordem social vigente. Em ambos os lados, os combatentes são, em sua maioria, camponeses e trabalhadores pobres.

Ciliana, designer gráfica, cumpre pena de 29 anos de prisão por um homicídio cometido enquanto membro das forças paramilitares. Claudia juntou-se às FARC para oferecer seus conhecimentos em primeiros socorros e psicologia. Até o momento, ela cumpriu oito anos de sua sentença de 40 anos por homicídio e terrorismo. Elas cumprem suas penas em uma prisão que abriga mulheres condenadas por violência em todos os lados do conflito. Claudia e Ciliana são companheiras de cela — e melhores amigas.


Tive o privilégio de entrevistá-los na prisão. Enquanto conversávamos, eles irradiavam paz e reflexão. Seus rostos estavam iluminados de alegria e, às vezes, de tristeza.

Notícias positivas: O que há de tão especial em seu relacionamento?

Ciliana: Eu estava aqui há um ano quando a Claudia foi transferida para a minha unidade e designada como minha colega de quarto. Se você é do grupo oposto, é incomum dividir um quarto sem solicitar uma mudança de quarto.

Claudia: Quando cheguei à minha nova cela, encontrei uma pessoa muito compreensiva, e quando percebi mais tarde que ela era paraquedista, não me importei. Ciliana me acolheu bem, porque ela tenta enxergar o ser humano por trás do crime. Começamos a fazer tudo juntas.

Ciliana: Foi aí que percebemos que tínhamos muito em comum. Vimos os filhos uma da outra crescerem e compartilhamos a dor de não tê-los por perto.

Claudia: Eu estava lá quando Ciliana recebeu o veredicto e pude apoiá-la em seu momento de angústia. Quando eu estava ao telefone com minha filha de 4 anos, Ciliana me consolava.

Ciliana: Nós duas percebemos que nenhuma de nós tinha a intenção de magoar alguém.

Percebemos também que podíamos ir além da ideologia que cria conflitos e guerras, e nos unir, o que reacendeu em nós a esperança na humanidade.

Quando discutimos assuntos, muitas vezes temos pontos de vista diferentes: Claudia pensa à esquerda [politicamente], e eu à direita. Mas buscamos um terreno comum.

PN: Como os outros reagiram à sua amizade?

Claudia: É raro que pessoas de fora entendam nossa amizade. As pessoas ficam chocadas porque existe uma mentalidade de que se você está com um lado, não pode estar com o outro.

Ciliana: As outras detentas também ficaram surpresas com o fato de termos nos tornado amigas.

PN: Isso afetou outras pessoas de alguma forma?


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Membros do grupo confeccionando uma faixa: "Estamos trabalhando pela paz na Colômbia".

Ciliana: Um dia, há cinco anos, pensamos que se nós conseguimos [nos tornar amigas], por que outras pessoas não conseguiriam? Percebemos que, se quiséssemos nos reconciliar, primeiro tínhamos que começar por nós mesmas. Então, propusemos um projeto de reconciliação com outras mulheres na prisão.
Sem o conhecimento dos funcionários da prisão, reunimos mulheres de lados opostos para uma cerimônia privada. Essa cerimônia nos ajudou a nos alinhar com o propósito de caminhar rumo à reconciliação e a criar um grupo de trabalho focado em como perdoar a nós mesmas e aos outros. Desde então, temos realizado atividades impactantes.

Claudia: Depois que nos fortalecemos como grupo, convidamos vítimas [do conflito] de fora da prisão para participarem de algumas atividades conosco. Realizamos diversos tipos de atividades de reconciliação. Decidimos que os militares, aqueles que defendem o Estado, também eram vítimas. O evento para o qual convidamos os militares foi significativo porque as mulheres aqui estavam preocupadas em não serem bem recebidas. Mas aconteceu o contrário. Os militares, os demais presentes e as mulheres se abraçaram e choraram juntos.

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Foi esse evento, com a presença da minha filha, que mais me emocionou. Foi quando, na frente de todos, pedi perdão a ela. Somos todos uma família. Mesmo agora, um ano depois, ainda mantemos contato com alguns dos militares que participaram.

PN: Quais são seus planos para o futuro?

Claudia: Assim que formos libertadas, gostaríamos de criar um centro para dar continuidade às nossas ideias de reconciliação, utilizando o que aprendemos aqui.

PN: Como podemos todos criar um mundo melhor?

Ciliana: Primeiro, precisamos julgar menos. Segundo, precisamos enxergar a essência uns dos outros. É verdade que as pessoas se machucaram, mas essa não é a essência de quem somos. Ser capaz de perdoar de verdade é importante, e a maneira de criar um perdão duradouro é enxergar a humanidade uns dos outros. Para a vítima, é preciso ouvir o que levou o agressor a cometer um ato de violência; para o agressor, é preciso compreender plenamente o impacto de suas ações ao ouvir a vítima. Nas atuais audiências de reconciliação na Colômbia, não há espaço para que essa humanidade emerja por meio de uma interação genuína — e isso precisa mudar.
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Graças a Camila Reyes, que organizou o encontro, a mensagem dessas duas mulheres notáveis ​​pode chegar até nós além dos muros da prisão.

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COMMUNITY REFLECTIONS

2 PAST RESPONSES

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Kristin Pedemonti Apr 27, 2016

Yes! See each others humanity! See the heart in front of you! What a beautiful and inspiring story!

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Virginia Reeves Apr 26, 2016

What an uplifting story. More power to those ladies for learning how to live with one another and improve their outlook. There is hope for the future through people like these.