Quando a palavra “aceitação” surge em uma sala, o “mas” quase sempre vem em seguida. Mas e o sofrimento e a injustiça? E a busca por nossos objetivos pessoais? E o nosso potencial individual e coletivo? Assim que a ideia de aceitação aparece, ironicamente, nos fechamos contra ela como se nos tornasse incapazes de qualquer coisa além de complacência e apatia. Em uma cultura focada em objetivos, orientada para o livre-arbítrio e para a intransigência, a aceitação pode parecer quase uma traição. Com medo de falhar conosco, com os outros e com o mundo; de sermos fracos em mente, corpo e espírito; de sermos usados e magoados; e de perder o controle, rejeitamos tudo que possa sugerir que somos fracos e propensos a ceder ou desistir.
Mas a aceitação não implica inerentemente inação, estagnação, passividade ou covardia. A aceitação não nos impede de perceber algo além do que é imediatamente aparente. Tudo é como é , e vivemos em um mundo em constante mudança e evolução, que somos convidados a reconhecer e ao qual somos convidados a responder ativamente a cada instante. A aceitação nos ancora para que possamos nos concentrar no presente, em vez de vagar indefinidamente em um mar de desejos, sonhos e anseios por algo diferente do que é. Assim como a suficiência pode gerar uma sensação de abundância, a aceitação pode nos abrir para um senso de possibilidade na forma de perguntas geradoras e talvez até mesmo respostas.
Presença e curiosidade nos convidam a refletir sobre o que está presente agora – em minha vida e no mundo. Nesse espaço, podemos encontrar a dolorosa realidade do sofrimento: as dificuldades e injustiças que parecem tão erradas de aceitar como fatos. Mas, por mais que desejemos nos afastar de tudo o que é difícil, é difícil imaginar agir de forma a atingir nosso pleno potencial sem antes compreender o terreno em que pisamos. Escolhemos como reagimos – mas, para fazê-lo com cuidado, devemos primeiro encarar de frente aquilo a que estamos reagindo. Ao nos voltarmos para as dificuldades, nos beneficiamos ao observá-las com a maior gentileza e humildade possíveis; isso não significa que devemos ignorar o impacto real das dificuldades da vida, mas dedicar um tempo para simplesmente estar com elas e considerá-las com genuína curiosidade pode mudar a forma como reagimos. Felizmente, nem todas as realidades que nos convidam à aceitação são desafiadoras: perceber que tudo está interligado, que o amor e a luz existem em meio à escuridão e que nem tudo está perdido pode nos nutrir em nossa jornada.
Assim, nos encontramos navegando pelo terreno complexo do paradoxo: conflito, escuridão e morte coexistindo com harmonia, luz e vida. Por mais difícil que seja aceitar, tal paradoxo sustenta nossa capacidade de viver plenamente, introduzindo uma nova questão que resume a maneira como a aceitação nos ativa: Diante das realidades deste momento, como posso agir? Aproveitamos a oportunidade, reconhecendo a realidade daquilo a que estamos reagindo e avaliando o que está disponível para nós. Em vez de nos deixarmos abater pela complacência ou pelo desespero que podem surgir de uma sensação de escassez, nos encorajamos a viver intensamente cada momento.
Discernir o que está presente e como somos chamados a agir pode nos confrontar com limitações. Mas a aceitação continua a nos servir. Em vez de negá-las ou ignorá-las como obstáculos, as limitações podem nos conduzir à possibilidade, assim como as tábuas de uma ponte sustentam nossa capacidade de transpor um abismo. Elas podem nos abrir um amplo espaço de investigação, onde somos convidados a desafiar nossas expectativas, desejos e narrativas, talvez não examinadas, sobre o que é e como deveria ser, ou como gostaríamos que fosse. Como nossas limitações podem nos servir? Como podem nos abrir para diferentes maneiras de perceber o que é? Talvez, ao aceitarmos as limitações que se apresentam, descubramos que temos tudo o que precisamos dentro de seus limites. Através de nossa presença e observação plenas, podemos nos esforçar para moldar nossas visões de vida — e as ações que as sustentam — com sabedoria fundamentada.
É claro que nossa sabedoria também representa uma limitação. Nosso esforço para aceitar o que é sempre será influenciado por nossa humanidade imperfeita. Mas podemos nos apoiar na humildade como uma bóia enquanto navegamos pelas águas turbulentas e cinzentas da imperfeição, da limitação e do paradoxo. Nossa visão tem limites, e todas as nossas observações e questionamentos, em última análise, nos levam ao domínio do desconhecido. A maior limitação que nos chama à aceitação é a de que simplesmente não podemos compreender ou sequer perceber a totalidade da vida. O irmão David Steindl-Rast reforça que não precisamos rejeitar essa limitação, sugerindo, ao contrário, que ela é necessária para vivermos todo o nosso potencial: “Não pode haver visão sem a aceitação do Mistério”.
Ao nos entregarmos ao mistério, nos libertamos em um território revigorante onde o que parecia o trabalho árduo, ou mesmo insuperável, de aceitar a nós mesmos, aos outros e o mundo como ele é, começa a se suavizar. As águas se acalmam e clareiam. As arestas começam a perder sua aspereza, florescendo com a grande plenitude da vida. Conforme continuamos a explorar o vasto espaço da aceitação, talvez nos sentindo mais à vontade com o tempo, possamos um dia dar saltos que antes pareciam grandes demais. Talvez possamos começar a confiar no mistério, e até mesmo na ideia de que tudo o que precisamos para a nossa imaginação mais ousada e brilhante da vida está diante de nós. Talvez até encontremos a coragem de dizer: "Obrigado".
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1 PAST RESPONSES
Thank you for this beautiful reframe and unpacking of acceptance. <3 May we each seek to live this each day for ourselves and each other.