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Lições Do Jardim: Colheita E Gratidão

É época de colheita. As ameixas caem das árvores todos os dias. Tomates, pepinos, abobrinhas e feijões precisam ser colhidos diariamente, junto com as ameixas, ou amadurecem muito rápido. Estou preparando molhos, sopas e ensopados para congelar, e branqueando acelga e os últimos brócolis.

Às vezes, parece avassalador. Uma amiga me ligou há uns dias e me convidou para passar uns dias em Alberta. "Parece maravilhoso e impossível ao mesmo tempo", respondi. Expliquei sobre a horta e a colheita, mas percebi que ela não entendeu nada. Ela murmurou algo, não pela primeira vez, e não sem gentileza, que eu era escrava da horta. "Não era para ser assim, né?", ela comentou.

Sentindo-me sobrecarregada por todo o trabalho necessário para lidar com a colheita, posso facilmente esquecer a gratidão por essa abundância. Às vezes brinco com o meu lembrete: "Lembre-se de janeiro. Lembre-se de fevereiro." Nestes meses frios, quando o jardim permanece silencioso sob uma espessa camada de neve, nos fartamos com a abundância do congelador e da adega, com alimentos ainda ricos em cor, sabor e nutrientes.

Mas a minha gratidão vai além de ter comida armazenada na adega durante o inverno.

colheita2 Certo outono, alguns anos atrás, ouvi no rádio uma reportagem sobre refugiados na Somália, lutando para encontrar comida, depois de migrarem em condições terríveis de seca e calor em busca de um lugar para viver onde houvesse comida suficiente para sobreviver. "Qualquer uma dessas pessoas", pensei, "adoraria ter o seu problema de excesso de comida, comida em abundância suficiente para durar por todas as estações até a próxima colheita?" Um novo nível de gratidão surgiu, pela minha sorte de ter nascido em um lugar onde a comida é tão acessível, onde há terra disponível, onde o clima favorece a abundância e onde a guerra é inexistente.

Existe outra dimensão na gratidão pelos alimentos que crescem aqui. Quando a ideia começou, de construir um solo rico e saudável, de cultivar o máximo possível no nosso próprio quintal, era também a minha contribuição para a sustentabilidade e para o que eu chamaria, no ideal budista, de meio de vida correto.

A indústria alimentícia se desconectou dos pequenos lotes de terra que circundam casas e vilarejos. Aqui no Canadá, mangas frescas da América do Sul chegam nos meses frios de inverno, alface e brócolis da Califórnia, abacates da Ásia. Embalagens e combustível são enormes acréscimos à produção de alimentos. Em um mundo onde estamos sobrecarregando seriamente os ecossistemas do planeta, desperdiçando recursos e poluindo em um ritmo alarmante, o que uma pessoa pode fazer?

Cultivar minha própria horta é um passo tão pequeno comparado à enormidade desses desafios ambientais, mas ainda assim é significativo. Ao longo dos anos, consigo contabilizar a economia em embalagens, combustível, outros custos de transporte, além da frescura e vitalidade dos alimentos.

Medindo em uma comparação direta, copo por copo ou quilo por quilo, do que é economizado em relação ao que é consumido no geral, parece insignificante. Mas pequenas ações não são insignificantes.

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O pensamento sistêmico demonstra que comportamentos muito pequenos podem alterar significativamente o funcionamento de sistemas muito grandes. E Rupert Sheldrake, em seu trabalho com campos morfogenéticos, sugere que as ações de um elemento de uma espécie podem afetar outros membros da mesma espécie, mesmo sem contato direto, mesmo quando os membros estão em continentes diferentes. Sheldrake relata testes de laboratório nos Estados Unidos, onde ratos aprendem a percorrer um labirinto para obter uma recompensa de comida. A primeira geração levou muito tempo para aprender o labirinto, enquanto as gerações subsequentes aprenderam em menos tempo. Curiosamente, ratos na Austrália, ao se depararem com o mesmo teste do labirinto pela primeira vez, aprenderam mais rapidamente do que a primeira geração de ratos. Muitas situações de teste foram realizadas em diversas partes do mundo, sugerindo que as espécies estão conectadas umas às outras por meio de um campo que transcende o físico.

Ações tomadas para apoiar a produção sustentável de alimentos, mesmo em pequena escala, podem fazer a diferença. Sou grata por saber disso, por ter lembretes, enquanto corto e pico cebolas para mais uma panela de sopa.

Ao pensar em lembranças e gratidão, sinto-a crescer. A beleza na comida – estas ameixas brilhantes de um vermelho profundo, com a polpa macia, doce e suculenta; a intensidade da cor na combinação do pimentão verde e do tomate vermelho, picados juntos na salada.

Participar desse processo é uma fonte de prazer. De fato, às vezes me canso com tanto trabalho, enquanto os alimentos amadurecem e seguem seu próprio ritmo, não o meu. Mas há também uma lição de entrega aqui. A de participar com alegria de um processo que vai muito além do meu próprio cronograma.

Sim, a colheita exige muito esforço. Mas poder trabalhar é uma dádiva e um privilégio. Escolho fazer este trabalho e abdicar de outros prazeres ou passatempos. Reservar um tempo para me lembrar do porquê, para não me sentir oprimido pelo esforço necessário, me recorda ano após ano a razão pela qual faço essa escolha. Não se trata apenas de lembrar de janeiro. Trata-se de estar presente agora, com todas as bênçãos e benefícios recebidos.

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COMMUNITY REFLECTIONS

1 PAST RESPONSES

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rhetoric_phobic Oct 12, 2016

I always share mine with the creatures I work so hard to keep from decimating them at the beginning of the growing season in the hopes they learn, good things come to those who wait. :-)
Thank you for sharing. It's a good reminder about gratitude.