A luz do sol inunda o saguão do asilo quando entro. Aos poucos, a luminosidade diminui conforme a porta se fecha. Meus olhos se acostumam a uma fileira de cadeiras de rodas, cujos ocupantes estão tão imóveis que parecem estar em profunda meditação. Uma mulher se levanta, seus olhos castanhos me procurando. "Meus pés não funcionam direito", diz ela educadamente. "Nem um pouco."
Caminho pelo corredor passando por koans vivos. Um homem está preso a uma cadeira com amarras acolchoadas que lembram um colete salva-vidas. Seus braços se estendem para a frente como se ele fosse nadar, mas ele não se move. Ele repete sem parar: "Eu, eu, eu, eu."
Uma auxiliar explica em tom alto e alegre para uma mulher curvada sobre um andador: "Não há andar de cima, Dorothy. Veja? Não tem elevador. Só temos um andar."
Dorothy a ignora e empurra o andador para a frente. "Vamos subir agora", diz ela.
“Mostre-me como chegar lá.”
Quando chego ao quarto onde mora a avó do meu marido, ela diz: "Aí está você!" Ela me reconhece, mesmo que não se lembre do meu nome. Hoje, consigo fazê-la falar sobre memórias da infância. Ela se lembra de que, por ser a caçula de uma família de imigrantes, precisava ser forte desde pequena. "Eles batiam na gente como se quisessem sal", diz ela, "mas eu não chorava."
“Quem te bateu, vovó?”
“Eu nunca tenho fome”, ela responde. “Nunca.”
Sua colega de quarto, que deixa a televisão ligada o dia todo, grita por cima do barulho de um programa de jogos: "Ned, vem cá."
Não há ninguém com esse nome na sala. Pelo menos não que eu consiga ver.
***
Todo este lar de idosos parece um poema vivo. Mas eu não quero escrever sobre as pessoas daqui. Eu quero escrever com elas.
Quando me formei na faculdade, não encontrei vagas na minha área. Em vez disso, consegui um emprego como diretora de atividades em um lar de idosos. Lá, eu lia o jornal em voz alta todas as manhãs para um grupo animado de idosos, solicitando suas opiniões e garantindo que encontrasse os artigos que eles adoravam comentar — histórias sobre as falhas humanas. Eu tocava músicas no piano, como "Bye Bye Blackbird" e "Let Me Call You Sweetheart", para cantarmos juntos. Reunia um grupo de ativistas todos os meses, nomeava-os Conselho dos Residentes e os ajudava a defender mudanças positivas junto à administração. E desenvolvi uma rede local de diretores de atividades. Compartilhávamos segredos bem guardados, como informações de contato de artistas de fantoches, quartetos de barbershop, mágicos amadores e outros dispostos a se apresentar em lares de idosos.
Meus colegas diretores de atividades e eu tínhamos os melhores empregos nesses lugares. Tínhamos tempo para ouvir as pessoas que moravam lá. Quando eu ouvia, realmente ouvia, eu sabia que estava na presença de poetas e sábios. Desenvolvi um programa de escrita para que outros também pudessem ouvi-los. Quando assumi o cargo, o boletim informativo mensal da instituição continha apenas uma programação de eventos, uma lista de aniversários e dicas genéricas de saúde. Mas o prédio abrigava 100 pessoas com vozes próprias. Eu precisava expandir aquela publicação.
Comecei com uma coluna chamada “Dica do Mês”. Alguns moradores não sabiam que dia da semana era ou onde estavam, mas se lhes pedíssemos sugestões sobre como fazer uma criança se comportar ou viver dentro das suas possibilidades, eles enchiam de conselhos. Essa coluna geralmente apresentava comentários de dezenas de moradores. Muitas vezes, suas opiniões se contradiziam, tornando a coluna mais interessante. Melhor ainda, funcionários e familiares implementavam algumas das sugestões em suas próprias vidas. Quando voltavam e contavam aos moradores como haviam se beneficiado, isso ajudava a colocar esses idosos de volta em sua posição de direito como anciãos com sabedoria para compartilhar.
Por exemplo:
Remédios caseiros para resfriado
“Minha mãe costumava colocar cebolas secas no meu peito como uma cataplasma. Ela as dourava em uma frigideira e as colocava bem quentes, o máximo que eu conseguia suportar.” — Harry Pierce
“Tomamos leite quente com gengibre.” — Carmen Morales
“Minha mãe esfregava gordura de ganso e terebintina em nossos peitos e nos mandava para a cama depois de nos dar um gole de uísque, água quente e açúcar. Nossa, como ficávamos fedendo depois disso!” — Lillian Edwards
Depois de superar o típico impasse da conversa, tão comum em lares de idosos, com o "como você está se sentindo hoje?", descobri residentes cujas sugestões eram longas e complexas demais para caber na seção " Dica do Mês " . Se perguntados sobre conselhos para formandos do ensino médio, suas respostas abrangiam psicologia, religião e cultura. Se a pergunta fosse sobre como lidar com valentões, alguns mencionavam assuntos internacionais, outros revelavam incidentes pessoais chocantes.
Então, acrescentei mais uma seção ao periódico. Esta se concentrava em um tema diferente a cada mês: época da colheita, primeiro dia de aula, melhores amigos, o que fazia um bom vizinho, sonhos de uma vida inteira, o toque de uma mãe, conselhos paternos, férias. Algumas pessoas trouxeram à tona fragmentos de memórias, outras compartilharam reflexões profundas. Quase todas as suas respostas iluminaram uma era passada.
Preparando-se para o inverno
“Meu avô, que era da Hungria, nunca bebeu água… A Hungria tinha estado em guerra e ambos os lados envenenaram a água. Ele nunca mais voltou a beber aquela água… Todos os anos, ele comprava um caminhão cheio de uvas e as despejava pela janela do porão. Nós o ajudávamos a fazer barris de vinho.” — Bill Dobscha
“Na Irlanda, a gente colhia as batatas, as maçãs e guardava tudo … Perto do inverno, o porco era abatido e a carne defumada. O trigo era moído para fazer pão e a gente se certificava de que havia aveia suficiente para alimentar nós 21 filhos durante todo o inverno.” — Catherine Monally
“Só as crianças ricas tinham patins, mas dava para deslizar no gelo batendo latas de conserva nos calcanhares e usar tampas de latas de lixo como trenós. A gente se divertia em qualquer clima.” — Freda Tesar
Às vezes, os novos funcionários tinham dificuldade em distinguir os residentes, frustrados pelo fato de a postura curvada e os cabelos brancos e ralos fazerem com que os muito idosos parecessem iguais. Mas as histórias publicadas ofereciam perspectivas únicas sobre os residentes que passavam dia após dia em quartos quase idênticos. Também nos davam mais assuntos para conversar com eles.
Embora algumas pessoas, compreensivelmente, tenham tido dificuldades em se adaptar à mudança para um lar de idosos, muitas se ajustaram com surpreendente facilidade às perdas representadas pela institucionalização — perda de identidade, saúde, bens materiais e liberdade. Suas contribuições para o boletim informativo deixaram claro que o fizeram porque já haviam enfrentado grandes dificuldades em suas vidas, duras lições sobre a impermanência.
Os residentes também desconstruíram o estereótipo do velhinho bonzinho. Alguns estavam ansiosos para falar sobre seus excessos, travessuras e até crimes. Muitas vezes, a dor ou a demência afrouxavam o senso de decoro que exercia um domínio maior sobre sua geração; outras vezes, a malícia parecia estar à espreita, logo abaixo da superfície. A disposição deles em revelar um lado mais ousado lhes rendeu um novo respeito, inclusive dos funcionários mais jovens. Enquanto os residentes falavam do passado, fiquei impressionado com a frieza de muitos de seus relatos. Parecia que eles não sofriam mais com o preconceito, o julgamento e a injustiça que lhes foram impostos ou que haviam infligido a outros. Falavam com um tom distante, como se estivessem simplesmente contando parábolas.
Logo adicionei a seção “Morador do Mês”. Isso me deu a oportunidade de ouvir histórias orais muito mais longas. Algumas pessoas me contavam detalhes que não queriam que fossem publicados, e trabalhávamos juntos para elaborar o material que desejavam ver divulgado. Geralmente, eu precisava corroborar os fatos com os arquivos delas e frequentemente me surpreendia ao encontrar informações importantes que elas não se deram ao trabalho de mencionar, mais uma prova de que as histórias não estão nos dados sobre onde alguém morou e trabalhou. Elas estão nos detalhes. Como, por exemplo, a história de uma garotinha que, junto com o pai mineiro, foi importunada por sindicalistas, e o orgulho dela em esconder os pratos do jantar dele na mesa para que ninguém suspeitasse que ele estava escondido debaixo da varanda da frente. Ou a morte de um irmão ou irmã durante a noite, vítima de difteria, e a homenagem posterior ao filho perdido, dando o mesmo nome ao primogênito. Havia também relatos de conquistas, dificuldades e sacrifícios, descartados com um gesto de mão: “Não, eu nunca mais vi minha mãe depois que saí da minha terra natal. Foi assim mesmo.”
Então, comecei a realizar oficinas regulares de poesia. Lia poemas em voz alta, passava objetos com cheiros e texturas relevantes, compartilhava observações (e servia biscoitos. Os doces inspiravam muitos participantes relutantes). Depois, rabiscava rapidamente enquanto eles conversavam. Mais tarde, combinava suas palavras em um poema coletivo, creditando a cada autor seu próprio verso. Os residentes e suas famílias pareciam preferir a poesia tradicional, então incentivei os participantes da oficina a trabalharem com rimas sempre que possível. Alguns tinham diagnóstico de demência ou sofriam de comprometimento da fala devido a um AVC. Embora não pudessem contribuir de forma coerente para nossos outros projetos de escrita, suas habilidades brilhavam na poesia.
As frases de um residente que repetia a mesma coisa incessantemente ganhavam um novo significado quando transformadas em refrão. O homem que comentava secamente sobre um assunto com apenas três palavras em uma hora teve sua contribuição incluída. O mesmo aconteceu com a mulher que interrompia constantemente com mais ideias. Após nossas oficinas, eu visitava os quartos de outros residentes para ouvir suas opiniões, procurando aqueles que não podiam comparecer às sessões de poesia, mas cujas impressões poderiam fazer a diferença. Ocasionalmente, eu transcrevia as palavras de um único residente para criar um poema inteiro.
Quando as palavras dos moradores eram convidadas, levadas a sério e registradas, quando eu assentia e os olhava nos olhos, eles tinham mais a dizer. Um silêncio prolongado, aliás, parecia trazer ideias de um lugar de profunda contemplação. Muitas vezes, observei o olhar de alguém se voltar para a janela, além do onipresente gerânio. Eu esperava. Quando parecia que haviam se esquecido completamente, falavam com graça, com força, de maneiras que justapunham símbolos a objetos, significado a abstração. Poesia.
***
“Te vejo semana que vem, vovó”, digo, inclinando-me para lhe dar um abraço. Ela parece presente, mas distante, como tantas das minhas maiores mestras. Afasto os cabelos do seu rosto, dou um tapinha na sua mão e ajeito o roupão. Ela sorri de longe. Fico parada por um instante. Ela desperta brevemente e olha para mim. “Escuta”, diz ela com urgência, “o vento! O vento!”
Não há janelas abertas, nem brisa na trilha sonora da TV ligada. Muitas vezes ela fala de um lugar que transcende a lógica. Quero saber se é possível rastrear o significado de suas palavras, mas seus olhos já estão fechados.
Ao sair, a luz do sol é intensa. Procuro meus óculos de sol às apalpadelas. Só então minha atenção se volta para minha respiração. O vento. O vento.
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4 PAST RESPONSES
Yes, take your children to nursing homes to sing, recite poetry, and listen to the sages. Such sensitivity inside of everyone.
What a fine tribute to those living out the end of their lives. You've gained much from listening and encouraging. They still feel meaningful. Well done.
Ah, to die well is a gift -- be the giver. }:- ❤️
Oh my goodness, how lovely.