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Este Texto é Uma adaptação Do Primeiro capítulo De The Courage to Teach: Exploring the Inner Landscape of a Teacher's Life (Jossey-Bass, 2007) De Parker J. Palmer.

Ensinamo

O espírito; o clero para ser CEOs, mas não guias espirituais; os professores para dominar técnicas, mas não para envolver o coração de seus alunos — ou o seu próprio. É por isso que nossos alunos são céticos quanto à eficácia de uma educação que transforma o panorama interior de suas vidas: quando a cultura acadêmica descarta a verdade interior e presta homenagem apenas ao mundo objetivo, tanto alunos quanto professores perdem a motivação.

Ouvindo o Professor Interior

Recuperar a vontade de ensinar exige que reconectemos com o professor interior. Esse professor é aquele que conhecemos na infância, mas com quem perdemos contato ao nos tornarmos adultos; um professor que continuamente me convida a honrar meu verdadeiro eu — não meu ego, minhas expectativas, minha imagem ou meu papel, mas o eu que sou quando todas as coisas externas são despojadas. Por professor interior, não me refiro à “consciência” ou ao “superego”, ao árbitro moral ou ao juiz interno. Na verdade, a consciência, como é comumente entendida, pode nos levar a sérios problemas vocacionais. Quando damos ouvidos principalmente ao que “deveríamos” estar fazendo com nossas vidas, podemos nos ver perseguidos por expectativas externas que podem distorcer nossa identidade e integridade. Há muito que eu “deveria” estar fazendo, segundo algum cálculo moral abstrato. Mas será essa a minha vocação? Sou talentoso e chamado para isso? Esse “dever” em particular é um ponto de interseção entre meu eu interior e o mundo exterior, ou é a imagem que outra pessoa tem de como minha vida deveria ser?

Quando sigo apenas os "deveres a cumprir", posso me ver realizando um trabalho eticamente louvável, mas que não me pertence. Uma vocação que não é minha, por mais valorizada externamente que seja, violenta o eu — precisamente porque viola minha identidade e integridade em nome de alguma norma abstrata. Quando me violei, invariavelmente acabo violando as pessoas com quem trabalho. Quantos professores infligem sua própria dor aos alunos — a dor de realizar um trabalho que nunca foi, ou não é mais, seu verdadeiro trabalho?

O professor interior não é a voz da consciência, mas sim da identidade e da integridade. Ele não fala do que deveria ser, mas do que é real para nós, do que é verdadeiro. Ele diz coisas como: "Isto é o que lhe serve e isto é o que não serve." "Isto é quem você é e isto é quem você não é." "Isto é o que lhe dá vida e isto é o que mata o seu espírito — ou faz você desejar estar morto." O professor interior guarda o portal da individualidade, repelindo tudo o que insulta a nossa integridade e acolhendo tudo o que a afirma. A voz do professor interior me lembra dos meus potenciais e limites enquanto navego pelo campo de força da minha vida.

Compreendo que a ideia de um “mestre interior” soe a alguns acadêmicos como uma fantasia romântica, mas não consigo entender porquê. Se tal realidade não existe em nossas vidas, séculos de discurso ocidental sobre os objetivos da educação se tornam meras palavras vazias. Na concepção clássica, a educação é a tentativa de “conduzir à luz”, a partir do interior do ser, um núcleo de sabedoria capaz de resistir à falsidade e viver à luz da verdade, não por normas externas, mas pela autodeterminação racional e reflexiva. O mestre interior é o núcleo vivo de nossas vidas, ao qual se dirige e que é evocado por qualquer educação que mereça esse nome.

Talvez a ideia seja impopular porque nos obriga a encarar duas das verdades mais difíceis sobre o ensino. A primeira é que o que ensinamos nunca "pegará" a menos que se conecte com o núcleo interior e vivo da vida de nossos alunos, com os mestres interiores de nossos alunos.

Podemos, e de fato fazemos, transformar a educação em uma atividade exclusivamente voltada para o exterior, forçando os alunos a memorizar e repetir fatos sem jamais apelar para sua verdade interior — e obtemos resultados previsíveis: muitos alunos nunca mais querem ler um livro desafiador ou ter um pensamento criativo depois que saem da escola. O tipo de ensino que transforma as pessoas não acontece se o professor interior do aluno for ignorado.

A segunda verdade é ainda mais assustadora: só podemos falar com o professor que existe dentro de nossos alunos quando estamos em sintonia com o professor que existe dentro de nós.

A aluna que disse que seus maus professores falavam como personagens de desenho animado estava descrevendo professores que se tornaram surdos à sua intuição, que separaram tão completamente a verdade interior das ações exteriores que perderam o contato com o próprio eu. O profundo se conecta com o profundo, e quando não sondamos nossas próprias profundezas, não podemos sondar as profundezas da vida de nossos alunos.

Como podemos dar atenção à voz do professor interior? Não tenho métodos específicos a sugerir, além dos mais conhecidos: solidão e silêncio, leitura meditativa e caminhadas na floresta, manter um diário, encontrar um amigo que simplesmente ouça. Proponho apenas que precisamos aprender o máximo possível de maneiras de "conversar conosco mesmos".

Essa expressão, claro, é uma que normalmente usamos para nomear um sintoma de desequilíbrio mental — um sinal claro de como nossa cultura encara a ideia de uma voz interior! Mas as pessoas que aprendem a conversar consigo mesmas podem logo se deliciar ao descobrir que o professor interior é o parceiro de conversa mais sensato que já tiveram.

Precisamos encontrar todas as maneiras possíveis de ouvir essa voz e levar seus conselhos a sério, não apenas pelo bem do nosso trabalho, mas também pelo bem da nossa própria saúde. Se alguém no mundo exterior está tentando nos dizer algo importante e ignoramos sua presença, essa pessoa ou desiste e para de falar ou se torna cada vez mais violenta na tentativa de chamar nossa atenção.

Da mesma forma, se não respondermos à voz do nosso mestre interior, ela se calará ou se tornará violenta: estou convencido de que algumas formas de depressão, das quais tenho experiência pessoal, são induzidas por um mestre interior há muito ignorado, que tenta desesperadamente nos fazer ouvi-lo, ameaçando nos destruir. Quando honramos essa voz com simples atenção, ela responde falando com mais suavidade e nos envolvendo em uma conversa revigorante com a alma.

Essa conversa não precisa chegar a conclusões para ser valiosa: não precisamos sair de um "conversa interna" com metas, objetivos e planos claros. Medir o valor do diálogo interno por seus resultados práticos é como medir o valor de uma amizade pela quantidade de problemas resolvidos quando amigos se reúnem.

A conversa entre amigos tem suas próprias recompensas: na presença deles, temos a simples alegria de nos sentirmos à vontade, em casa, confiantes e capazes de confiar. Nos conectamos com o nosso mestre interior não para sermos consertados, mas para nos tornarmos amigos do nosso eu mais profundo, para cultivar um senso de identidade e integridade que nos permita sentirmo-nos em casa onde quer que estejamos.

Ouvir o professor interior também oferece uma resposta para uma das perguntas mais básicas que os professores enfrentam: como posso desenvolver a autoridade para ensinar, a capacidade de me manter firme em meio às forças complexas tanto da sala de aula quanto da minha própria vida?

Em uma cultura de objetificação e técnica, frequentemente confundimos autoridade com poder, mas os dois não são a mesma coisa. O poder opera de fora para dentro, enquanto a autoridade opera de dentro para fora. Estamos enganados quando buscamos "autoridade" fora de nós mesmos, em fontes que vão desde as habilidades sutis do processo grupal até aquele método pouco sutil de controle social chamado avaliação. Essa visão do ensino transforma o professor no policial da esquina, tentando manter as coisas fluindo de forma amigável e consensual, mas sempre recorrendo ao poder coercitivo da lei.

Ferramentas externas de poder podem ser úteis ocasionalmente no ensino, mas não substituem a autoridade, a autoridade que emana da vida interior do professor. A chave está na própria palavra, que tem "autor" em sua essência. A autoridade é concedida a pessoas que são percebidas como "autoras" de suas próprias palavras, suas próprias ações, suas próprias vidas, em vez de desempenharem um papel predefinido, distante de seus próprios sentimentos. Quando os professores dependem do poder coercitivo da lei ou da técnica, eles não têm autoridade alguma.

Tenho plena consciência dos momentos em que, durante meu próprio ensino, perco o contato com meu professor interior e, consequentemente, com minha própria autoridade. Nesses momentos, tento ganhar poder me entrincheirando atrás do púlpito e do meu status, enquanto brando a ameaça das notas. Mas quando meu ensino é autorizado pelo professor que existe dentro de mim, não preciso de armas nem armaduras para ensinar.

A autoridade surge quando recupero minha identidade e integridade, relembrando minha individualidade e meu senso de vocação. Então, o ensino pode brotar das profundezas da minha própria verdade — e a verdade que reside em meus alunos tem a oportunidade de responder da mesma forma.

Instituições e o Coração Humano

Minha preocupação com a “paisagem interior” do ensino pode parecer indulgente, até irrelevante, em um momento em que muitos professores lutam simplesmente para sobreviver. Não seria mais prático, às vezes me perguntam, oferecer dicas, truques e técnicas para se manter vivo na sala de aula, coisas que professores comuns possam usar no dia a dia? Trabalhei com inúmeros professores, e muitos deles confirmaram minha própria experiência: por mais importantes que sejam os métodos, o mais prático que podemos alcançar em qualquer tipo de trabalho é a compreensão do que acontece dentro de nós enquanto o realizamos. Quanto mais familiarizados estivermos com nosso terreno interior, mais seguros se tornam nosso ensino — e nossa vida.

Ouvi dizer que na formação de terapeutas, que envolve muita técnica prática, existe um ditado: "A técnica é o que você usa até o terapeuta chegar". Bons métodos podem ajudar um terapeuta a encontrar um caminho para o dilema do cliente, mas uma boa terapia só começa quando o terapeuta, na vida real, se conecta com a vida real do cliente.

A técnica é o que os professores usam até que o verdadeiro professor chegue, e precisamos encontrar todas as maneiras possíveis de ajudar esse professor a se manifestar. Mas se quisermos desenvolver a identidade e a integridade que um bom ensino exige, precisamos fazer algo estranho à cultura acadêmica: precisamos conversar uns com os outros sobre nossas vidas interiores — algo arriscado em uma profissão que teme o pessoal e busca segurança no técnico, no distante, no abstrato.

Recentemente, me lembrei desse medo ao ouvir um grupo de professores discutir o que fazer quando os alunos compartilham experiências pessoais em sala de aula — experiências relacionadas aos temas do curso, mas que alguns professores consideram “mais adequadas a uma sessão de terapia do que a uma sala de aula universitária”.

A casa logo se dividiu em linhas previsíveis. De um lado estavam os acadêmicos, insistindo que a disciplina é primordial e jamais deve ser comprometida em prol da vida dos alunos. Do outro lado estavam os defensores da ideia de que a vida dos alunos deve sempre vir em primeiro lugar, mesmo que isso signifique que a disciplina seja prejudicada. Quanto mais vigorosamente esses grupos promoviam suas ideias polarizadas, mais antagônicos se tornavam — e menos aprendiam sobre pedagogia ou sobre si mesmos.

A distância entre essas visões parece intransponível — até entendermos o que a cria. No fundo, esses professores não estavam debatendo técnicas de ensino. Eles estavam revelando a diversidade de identidade e integridade entre si, dizendo, de várias maneiras: “Aqui estão meus próprios limites e potenciais quando se trata de lidar com a relação entre a disciplina e a vida dos meus alunos”.

Se parássemos de trocar farpas pedagógicas e falássemos sobre quem somos como professores, algo notável poderia acontecer: a identidade e a integridade poderiam crescer dentro de nós e entre nós, em vez de se endurecerem como acontece quando defendemos nossas posições fixas nas trincheiras das guerras pedagógicas.

Mas falar a verdade sobre nós mesmos com os colegas de trabalho é uma tarefa repleta de perigos, contra a qual erguemos tabus formidáveis. Tememos nos tornar vulneráveis ​​em meio a pessoas competitivas e a uma política que poderia facilmente se voltar contra nós, e reivindicamos o direito inalienável de separar o “pessoal” do “profissional” em compartimentos herméticos (embora todos saibam que os dois estão indissoluvelmente interligados). Assim, mantemos a conversa no ambiente de trabalho objetiva e externa, achando mais seguro falar sobre técnica do que sobre a nossa individualidade.

De fato, a história que mais ouço de professores (e outros profissionais) é que as instituições em que trabalham são o pior inimigo do coração. Nessa história, as instituições tentam continuamente diminuir o coração humano para consolidar seu próprio poder, e o indivíduo fica diante de uma escolha desanimadora: distanciar-se da instituição e de sua missão e afundar em um cinismo cada vez maior (um risco inerente à vida acadêmica), ou manter-se eternamente vigilante contra a invasão institucional e lutar por sua vida quando ela chegar.

Levar a conversa entre colegas para os recônditos mais profundos, onde podemos crescer em autoconhecimento para o benefício da nossa prática profissional, não será uma tarefa fácil nem popular. Mas é uma tarefa que os líderes de todas as instituições de ensino devem assumir se desejam fortalecer a capacidade da sua instituição de cumprir a missão educacional. Como podem as escolas educar os alunos se não apoiarem a vida interior dos professores? Educar é guiar os alunos numa jornada interior rumo a formas mais autênticas de ver e estar no mundo. Como podem as escolas cumprir a sua missão sem encorajar os guias a explorar esse terreno interior?

À medida que este século de objetificação e manipulação por meio da técnica se aproxima do fim, vivenciamos um esgotamento dos recursos institucionais justamente quando os problemas que nossas instituições precisam enfrentar se tornam mais profundos e exigentes. Assim como a medicina do século XX, famosa por suas soluções externas para as doenças, viu-se obrigada a buscar as dimensões psicológicas e espirituais da cura, a educação do século XX também precisa abrir uma nova fronteira no ensino e na aprendizagem: a fronteira da vida interior do professor.

Como isso pode ser feito é um assunto que explorei em ensaios anteriores na revista Change, então não me repetirei aqui. Em “Good Talk About Good Teaching” (Boa Conversa Sobre Bom Ensino), examinei alguns dos elementos-chave necessários para que uma instituição ofereça oportunidades não obrigatórias e não invasivas para que o corpo docente se ajude e se ajude mutuamente a crescer internamente como professores. Em “Divided No More: A Movement Approach to Educational Reform” (Não Mais Divididos: Uma Abordagem de Movimento para a Reforma Educacional), explorei o que podemos fazer por conta própria quando as instituições resistem ou se mostram hostis à agenda interna.

Nossa tarefa é criar espaços seguros e relações de confiança suficientes no ambiente acadêmico — protegidos por mecanismos estruturais adequados — para que mais professores possam expressar abertamente suas lutas e alegrias como docentes, de maneiras que acolham a alma e lhe deem espaço para crescer. Nem todos os espaços podem ser seguros, nem todas as relações confiáveis, mas certamente podemos desenvolver mais espaços seguros do que temos atualmente, para que haja um aumento na honestidade e na cura dentro de nós e entre nós — para o nosso próprio bem, para o bem do nosso ensino e para o bem dos nossos alunos.

A honestidade e a cura, por vezes, acontecem de forma bastante simples, graças aos poderes alquímicos da alma humana. Quando eu, com 30 anos de experiência docente, falo abertamente sobre o facto de ainda abordar cada nova turma com apreensão, os professores mais jovens dizem-me que isso faz com que os seus próprios medos pareçam mais naturais — e, portanto, mais fáceis de transcender — e, frequentemente, surge um rico diálogo sobre a identidade do professor. Não discutimos técnicas para "lidar com o medo", se é que existem. Em vez disso, encontramos-nos como companheiros de jornada e oferecemos encorajamento uns aos outros nesta exigente, mas profundamente gratificante, viagem pela paisagem interior da educação — reconectando-nos com a identidade e a integridade que animam todo o bom trabalho, sobretudo o trabalho chamado ensino.

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COMMUNITY REFLECTIONS

2 PAST RESPONSES

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Alex Kakungi Dec 10, 2024
I find the analogy of the 'teacher within' the teacher and the student highly illuminating. I want to believe that when the :teacher within' the teacher speaks, the 'teacher within' the student understands the language with ease! I humbly appreciate your reflection
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Emily Taussig Oct 3, 2016

Thank you for reminding me of when classes and meetings are successful, when there are no hidden agendas.-Emily