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Gandhi Sobre O Poder De Um

Como seres humanos, nossa grandeza reside não tanto na capacidade de refazer o mundo — esse é o mito da “era atômica” — mas sim na capacidade de refazer a nós mesmos.

—Mahatma Gandhi

[...] Algumas pessoas me dizem que estou sendo idealista em relação à natureza humana. "Seria bom", dizem elas, "se nós, seres humanos, pudéssemos superar impulsos como medo, ganância e violência quando percebemos que eles ameaçam o bem-estar de todos. Mas isso simplesmente não é realista. Sempre que houver um conflito entre a razão e a biologia, a biologia certamente vencerá."

Com base nesse argumento, alguns observadores acreditam que ultrapassamos o ponto sem retorno. Como lemingues, parecem dizer, devemos correr para uma destruição que nós mesmos causaremos. Discordo categoricamente — e como prova, tenho o exemplo vivo de Mahatma Gandhi, que não apenas transformou o medo, a ganância e a violência em si mesmo, mas inspirou centenas de milhares de homens, mulheres e até crianças comuns na Índia a fazerem o mesmo.

Quando eu era estudante, na casa dos vinte anos, a Índia estava sob domínio britânico havia duzentos anos. É difícil imaginar o que isso significa se você não viveu essa época. Não se trata apenas de exploração econômica; gerações crescem com uma cultura estrangeira sobreposta à sua própria. Quando entrei para a faculdade, nunca questionei o axioma de que tudo que valia a pena, tudo que poderia realizar meus sonhos, vinha do Ocidente. A ciência, a riqueza, o poderio militar, tudo demonstrava inequivocamente a superioridade da civilização ocidental. Nunca passou pela cabeça da maioria de nós procurar respostas em outro lugar.

Mas então surgiu Gandhi, que estava transformando a Índia desde o Himalaia, no norte, até o Cabo Kanniyakumari, no sul. Todos no país falavam de Gandhi, o estadista; Gandhi, o político; Gandhi, o economista; Gandhi, o educador. Mas eu queria saber sobre Gandhi, o homem. Eu queria descobrir o segredo do seu poder.

Eu sabia que, em sua juventude, Gandhi fora um advogado tímido e ineficaz, cuja única característica extraordinária eram suas orelhas grandes. Quando retornou da África do Sul para a Índia, em 1915, ele havia se transformado em uma força tão poderosa de amor e não violência que se tornaria um farol para o mundo inteiro. E eu tinha apenas uma pergunta que me guiava: qual era o segredo de sua transformação?

Minha universidade ficava em Nagpur, uma localização estratégica no centro geográfico da Índia, onde todas as principais ferrovias que ligavam o norte ao sul, o leste ao oeste, convergiam como raios de uma roda. Perto dali ficava a cidade de Wardha, um ponto no mapa que ganhou reconhecimento internacional como o último entroncamento ferroviário antes do ashram de Gandhi. O resto do caminho era por conta própria. Caminhei alguns quilômetros pela estrada quente e empoeirada até o pequeno povoado que Gandhi chamava de Sevagram, “a vila do serviço”.

Em Sevagram, encontrei-me entre jovens de todo o mundo — americanos, japoneses, africanos, europeus, até mesmo britânicos — que tinham vindo para ver Gandhi e ajudar em seu trabalho. Para Gandhi, não parecia fazer diferença se a pessoa tinha pele branca, parda ou negra, se o apoiava ou se opunha a ele: ele se relacionava com todos com facilidade e respeito. Quase imediatamente, ele nos fez sentir como se fôssemos parte de sua própria família.

De fato, creio que, em um recanto íntimo de nossos corações, todos nos víamos nele. Eu me via. Era como se um elemento precioso, comum a todos nós, tivesse sido extraído e purificado para brilhar intensamente como o Mahatma, a Grande Alma. Essa comunhão era o que mais nos comovia — a sensação de que, apesar de todos os nossos medos, ressentimentos e pequenas falhas, nós também éramos feitos dessa mesma essência. A Grande Alma era a nossa alma.

Naquela época, é claro, muitos observadores diziam que Gandhi era extraordinário, uma exceção às limitações que restringem o resto da humanidade. Outros o desconsideravam — alguns com grande respeito, outros com menos — como apenas mais um grande homem que deixava sua marca na história. No entanto, segundo ele, não havia ninguém mais comum. "Afirmo ser um homem comum, com habilidades abaixo da média", repetia frequentemente. "Não tenho a menor dúvida de que qualquer homem ou mulher pode alcançar o que eu alcancei, se fizer o mesmo esforço e cultivar a mesma esperança e fé."

O fato é que, enquanto a maioria das pessoas considera a normalidade uma falha ou limitação, Gandhi descobriu nela o próprio significado da vida — e da história. Para ele, não eram os famosos, os ricos ou os poderosos que mudariam o curso da história. Se o futuro for diferente do passado, ensinava ele, se quisermos deixar uma Terra pacífica e saudável para nossos filhos, serão os homens e mulheres comuns que o farão: não se tornando extraordinários, mas descobrindo que nossa maior força reside não em quanto somos diferentes uns dos outros, mas em quanto — muito — somos iguais.

Essa fé no poder do indivíduo formou a base da visão extremamente compassiva de Gandhi sobre os grandes problemas da era industrial, bem como sobre os problemas menores, mas não menos urgentes, que encontramos em nossas próprias vidas. Nossos problemas, ele diria, não são inevitáveis; não são, como alguns historiadores e biólogos sugeriram, um efeito colateral necessário da civilização.

Pelo contrário, a guerra, a injustiça econômica e a poluição surgem porque ainda não aprendemos a utilizar nossas capacidades mais civilizadoras: a criatividade e a sabedoria que todos possuímos como direito inato. Quando ao menos uma única pessoa chega a possuir plenamente essas capacidades, nossos problemas se revelam em sua verdadeira essência: são simplesmente o resultado de erros de julgamento evitáveis ​​— embora fatais.

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COMMUNITY REFLECTIONS

1 PAST RESPONSES

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godseye Feb 28, 2012

I always love Gandhi, he took stubbornness to great heights and brought an Empire to his humble table. He was thoroughly human yet other worldly in spirit and out look. His words always ring true in one's heart.