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Os Pequenos Sons Do Passado

[O texto a seguir é um trecho de "Em Louvor à Escuta", de Christian McEwen (outubro de 2023, Bauhan Publishing).]

Alice Cozzolino é uma cozinheira extraordinária; quase se poderia chamá-la de "uma sussurradora de comida". Durante a maior parte da sua vida, ela se considerou "alguém que alimenta". É uma habilidade que remonta à sua mais tenra infância.

Quando Alice era menina, ela e sua mãe faziam macarrão com feijão toda semana. Na noite anterior, as duas se sentavam juntas na cozinha separando os feijões. A mãe os espalhava pela mesa, os feijões-verdes, as lentilhas e os feijões-brancos, todos misturados, fazendo uma pilha para Alice e outra para si mesma. Então, pegando 10 ou 12 de cada vez, elas os "shhh e deixavam cair" em tigelas de metal brilhantes. O objetivo era separar os pedacinhos de pedra ou areia, os grãos menos perfeitos. A mãe queria que cada grão fosse perfeito.

“Shhh e cai, shhh e cai, shhh e cai”, murmura Alice. Mesmo agora, o som a transporta de volta no tempo, de volta a si mesma aos cinco e seis anos de idade. “Mais do que qualquer coisa no mundo”, diz ela, “esse som me transporta”.

Muitos de nós recorremos a imagens para despertar nossas memórias: os desenhos da infância, ainda colados na parte de trás da velha geladeira; o álbum de família abarrotado de fotografias desbotadas. Mas os sons também podem ser poderosamente evocativos.

Eleanor Adams nasceu em Connecticut em 1916 e passou os verões da infância em uma ilha chamada Deer Isle. Mesmo já com mais de 90 anos, ela se lembrava do som de cada caminhão da região, cada um com seu motor característico. Ela gostava de acordar bem cedo — no que, para ela, era “o meio da noite” — para ouvir o leiteiro em sua carroça puxada por cavalos: o barulho dos cascos batendo no asfalto, o tilintar das garrafas de vidro sendo colocadas na varanda.

As crianças observam e escutam, percebem, prestam atenção. Deitam-se no tapete gasto em frente à lareira e ouvem o clique de uma agulha contra a ponta irregular do dedal, a suave inspiração de alguém. Nada é tão modesto ou banal que não possa ser apreciado. Mariel Kinsey cresceu na China, onde seus pais eram missionários. Ela se lembrava do alto capim atrás da casa da família, “parecido com milho”, disse ela, e de como as crianças gostavam de brincar ali, “fazendo barulho com ele”. Ela também descreveu uma vizinha chamada Sra. Hauskke, que costumava distribuir fatias de pão com manteiga polvilhadas com açúcar. Kinsey tinha seis ou sete anos na época e ainda se lembrava da sensação de morder uma daquelas fatias. “Pão branco besuntado com manteiga e açúcar. E o som crocante do açúcar! Não é incrível?”

Num mundo cada vez mais ruidoso e intrusivo, essas memórias podem servir de catalisadores, lembrando-nos de prestar atenção às nossas próprias impressões do presente ou de "escutar para dentro", o que nossos corpos têm a dizer. É como se, ao evocar esses sons há muito perdidos, conseguíssemos reconstituir o chão sob nossos pés e o céu acima de nós, os próprios alicerces do nosso ser humano.

“Lembre-se de amar seu sentido da audição”, aconselha o compositor WA Mathieu, “ame o eco do mundo nos chamando para despertar dentro de nossos crânios”.

Faça um brainstorming sobre as primeiras memórias sonoras, sem distinção entre sons "importantes" e "sem importância", humanos e não humanos. Elabore uma lista rica, inclusiva e desordenada e incentive seus alunos a fazerem o mesmo.

um cachorro latindo, alguém rindo

o som de um martelo, sua batida irregular

Deitada no tapete entre o sofá e a cadeira, ouvindo as vozes distantes dos adultos.

Ouvindo o relincho de um cavalo ao expirar!

As pessoas podem escrever um poema em forma de lista, se quiserem, nos moldes de "Eu Me Lembro", de Joe Brainard, ou podem escolher dois ou três itens para descrever mais detalhadamente, talvez focando em memórias há muito esquecidas ou sons favoritos. Minha amiga Meg Fisher não tinha certeza, a princípio, se tinha algo para contar. A maioria de suas memórias de infância eram visuais. Mas então ela se lembrou do sino prateado de seu triciclo. "Eu consigo me lembrar muito bem do som que aquele sino de metal fazia. Tring-tring! Fazia aquele trinzinho gostoso e satisfatório toda vez que você apertava." De repente, ela conseguia ver a alça torcida do sino e sentir o polegar nela, ver o guidão ao qual estava preso e como o guidão se conectava à roda dianteira do triciclo. O cimento branco da calçada, a grama meio áspera e ressecada — todos esses detalhes foram revelados por sua memória nítida do sino.

“Eles estavam trancados, inacessíveis, até que o som os libertou.”

***

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