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O Prado Do Outro Lado Do Riacho

Este ensaio foi publicado em A Grande Obra: Nosso Caminho para o Futuro, de Thomas Berry.

Eu era jovem na época, tinha uns doze anos. Minha família era Mudei-me de uma parte mais tranquila de uma cidade do sul para a periferia, onde a nova casa ainda estava sendo construída. A casa, ainda inacabada, ficava em uma leve encosta. Lá embaixo, havia um pequeno riacho e, do outro lado, um prado. Era início de tarde de maio quando olhei pela primeira vez para a paisagem e vi o prado. O campo estava coberto de lírios que se elevavam acima da grama alta. Um momento mágico; essa experiência deu à minha vida algo, não sei o quê, que parece explicá-la em um nível mais profundo do que quase qualquer outra experiência de que me lembro.

Não eram apenas os lírios. Era o canto dos grilos, a mata ao longe e as nuvens em um céu que, de resto, estava limpo. Não foi algo consciente que aconteceu naquele instante. Continuei minha vida como qualquer jovem faria. Talvez não tenha sido simplesmente aquele momento que me marcou tão profundamente. Talvez tenha sido uma sensibilidade que se desenvolveu ao longo da minha infância. Contudo, com o passar dos anos, esse momento retorna à minha mente, e sempre que reflito sobre minha postura perante a vida, a trajetória dos meus pensamentos e as causas às quais dediquei meus esforços, parece que volto a esse momento e ao impacto que ele teve na minha percepção do que é real e valioso na vida.

Essa experiência inicial, ao que parece, tornou-se normativa para mim em toda a extensão do meu pensamento. Tudo o que preserva e aprimora esse prado nos ciclos naturais de sua transformação é bom; tudo o que se opõe a esse prado ou o nega não é bom. Minha orientação de vida é tão simples quanto isso. E também tão abrangente. Aplica-se à economia e à orientação política, assim como à educação, à religião e a tudo o mais.

É bom, do ponto de vista econômico, fomentar os processos naturais deste prado. É ruim, do ponto de vista econômico, diminuir a capacidade deste prado de se renovar a cada primavera e de proporcionar um ambiente onde os grilos possam cantar e os pássaros se alimentar. Tais prados, como eu aprenderia mais tarde, estão em constante processo de transformação. Contudo, esses biossistemas em evolução merecem a oportunidade de serem eles mesmos e de expressarem suas próprias qualidades intrínsecas. Assim como na economia, também na jurisprudência, no direito e nos assuntos políticos: é bom reconhecer o direito deste prado, do riacho e da mata além dele de existirem e prosperarem em sua expressão sazonal sempre renovada, mesmo enquanto processos maiores moldam a biorregião na sequência mais ampla de transformações.

A religião também, ao que me parece, tem sua origem aqui, no profundo mistério deste lugar. Quanto mais se pensa na infinidade de atividades interligadas que aqui acontecem, mais misterioso tudo se torna; mais significado se encontra no florescimento dos lírios em maio; mais maravilhado se fica simplesmente ao contemplar este pequeno pedaço de prado. Não possui a majestade dos Montes Apalaches ou das montanhas do Oeste, a imensidão ou o poder dos oceanos, nem mesmo a austera magnificência do deserto; contudo, neste pequeno prado, a magnificência da vida como celebração se manifesta de uma maneira tão profunda e impressionante quanto em qualquer outro lugar que conheci nestes últimos anos.

Parece-me que todos nós tivemos experiências semelhantes antes de entrarmos em um estilo de vida industrial. O universo, como manifestação de uma grandeza primordial, era reconhecido como a referência última em qualquer compreensão humana do mundo maravilhoso, porém temível, que nos cerca. Cada ser atingia sua plena identidade por meio de seu alinhamento com o próprio universo. Para os povos indígenas do continente norte-americano, toda atividade formal era primeiramente situada em relação às seis direções do universo: os quatro pontos cardeais combinados com os céus acima e a Terra abaixo. Somente assim qualquer atividade humana poderia ser plenamente validada.

O universo era o mundo do significado nesses tempos remotos, a referência fundamental na ordem social, na sobrevivência econômica e na cura de doenças. Nesse vasto ambiente, habitavam as musas, de onde provinha a inspiração da poesia, da arte e da música. O tambor, pulsação do próprio universo, estabelecia o ritmo da dança, por meio da qual os humanos entravam em sintonia com o movimento do mundo natural. A dimensão numinosa do universo se imprimia na mente através da imensidão dos céus e do poder revelado nos trovões e relâmpagos, bem como na renovação da vida na primavera, após a desolação do inverno. Além disso, a aparente impotência do ser humano diante de todas as ameaças à sua sobrevivência revelava sua íntima dependência do funcionamento integral das coisas. Que o ser humano tivesse uma relação tão íntima com o universo circundante só era possível porque o próprio universo já possuía uma relação íntima prévia com o ser humano.

Essa experiência ainda hoje observamos nos povos indígenas do mundo. Eles vivem em um universo, em uma ordem cosmológica, enquanto nós, os povos do mundo industrializado, não vivemos mais em um universo. Vivemos em um mundo político, uma nação, um mundo empresarial, uma ordem econômica, uma tradição cultural, na Disneylândia. Vivemos em cidades, em um mundo de concreto e aço, de rodas e fios, um mundo de negócios, de trabalho. Não vemos mais as estrelas à noite, nem os planetas, nem a lua. Mesmo durante o dia, não experimentamos o sol de forma imediata ou significativa. Verão e inverno são a mesma coisa dentro do shopping. O nosso é um mundo de rodovias, estacionamentos, centros comerciais. Lemos livros escritos com um alfabeto estranhamente artificial. Não lemos mais o livro do universo.

Tampouco coordenamos nosso mundo de significado humano com o significado do que nos cerca. Nos desvinculamos dessa profunda interação com o meio ambiente, inerente à nossa própria natureza. Nossos filhos não aprendem a ler o Grande Livro da Natureza nem a interagir criativamente com as transformações sazonais do planeta. Raramente aprendem de onde vem a água que consomem ou para onde ela vai. Não coordenamos mais nossas celebrações humanas com a grande liturgia dos céus.

Nos tornamos, de fato, seres estranhos, tão completamente em desacordo com o planeta que nos deu origem. Dedicamos enorme talento, conhecimento e pesquisa ao desenvolvimento de uma ordem humana desvinculada e até mesmo predatória das próprias fontes de onde viemos e das quais dependemos a cada instante de nossa existência. Iniciamos nossos filhos em uma ordem econômica baseada na exploração dos sistemas naturais do planeta. O descompasso ocorre de forma bastante simples, pois nós mesmos nos tornamos insensíveis ao mundo natural e não percebemos o que estamos fazendo. Contudo, se observarmos atentamente nossas crianças em seus primeiros anos e virmos como elas são instintivamente atraídas pelas experiências do mundo natural ao seu redor, perceberemos o quão desorientadas elas ficam no ambiente mecanizado e até tóxico que lhes proporcionamos.

Recuperar uma relação integral com o universo, o planeta Terra e a América do Norte precisa ser uma preocupação primordial para os povos deste continente. Embora um novo alinhamento do nosso governo, de todas as nossas instituições e profissões com o próprio continente, em sua estrutura e funcionamento mais profundos, não possa ser alcançado imediatamente, podemos começar a trabalhar nisso por meio de nossos programas educacionais. Especialmente nos primeiros anos do ensino fundamental, novos desenvolvimentos são possíveis. Esse era o pensamento de Maria Montessori na terceira década deste século.

Ao falar sobre a educação da criança de seis anos, Maria observa em seu livro "Educar o Potencial Humano" que a educação só começa de fato quando a criança é capaz de identificar seu próprio centro com o centro do universo. Pois o universo, diz ela, "é uma realidade imponente". É "uma resposta para todas as perguntas". "Caminharemos juntos nesta senda da vida, pois todas as coisas fazem parte do universo e estão interligadas, formando uma unidade completa." É isso que permite "à mente da criança se centrar, parar de vagar em uma busca sem rumo pelo conhecimento". A autora menciona então como essa experiência do universo desperta na criança admiração e encantamento, permitindo-lhe unificar seu pensamento. Dessa forma, a criança aprende como todas as coisas estão relacionadas e como a relação entre elas é tão íntima que "não importa o que toquemos, um átomo ou uma célula, não podemos explicá-lo sem o conhecimento do vasto universo".

A dificuldade reside no fato de que, com o surgimento das ciências modernas, passamos a pensar no universo como uma coleção de objetos, em vez de uma comunhão de sujeitos. Frequentemente, associamos a perda do mundo espiritual interior da mente e das emoções humanas ao surgimento das ciências mecanicistas modernas. O mais significativo, porém, é que perdemos o próprio universo. Obtivemos amplo controle sobre o funcionamento mecanicista e até mesmo biológico do mundo natural, mas esse controle em si produziu consequências mortais. Não apenas controlamos o planeta em grande parte de seu funcionamento básico; em grande medida, extinguimos os próprios sistemas de vida. Silenciamos muitas daquelas vozes maravilhosas do universo que outrora nos falavam dos grandes mistérios da existência.

Já não ouvimos as vozes dos rios ou das montanhas, nem as vozes do mar. As árvores e os prados já não são modos íntimos de presença espiritual. Tudo à nossa volta tornou-se um "isto" em vez de um "tu". Continuamos a fazer música, a escrever poesia, a pintar, a esculpir e a construir arquitetura, mas estas atividades tornam-se facilmente uma expressão estética meramente humana e, com o tempo, perdem a intimidade, o brilho e as qualidades impressionantes do próprio universo. No universo aceito desta época, temos pouca capacidade para participar nos mistérios celebrados nos modos de expressão literários, artísticos e religiosos anteriores. Pois já não podíamos viver no universo em que estes foram escritos. Só nos restava observar, por assim dizer.

No entanto, o universo está tão intrinsecamente ligado à experiência estética, à poesia, à música, à arte e à dança, que não podemos evitar completamente as dimensões implícitas do mundo natural, mesmo quando pensamos na arte como "representacional", "impressionista", "expressionista" ou como "declaração pessoal". Seja qual for a nossa concepção de arte ou literatura, o seu poder reside na maravilha comunicada de forma mais direta pelo prado, pelas montanhas, pelo mar ou pelas estrelas na noite.

De especial importância é nossa capacidade de celebração, que inevitavelmente nos insere nos rituais que coordenam os assuntos humanos com a grande liturgia do universo. Nossos feriados nacionais, eventos políticos, feitos humanos heroicos: todos são dignos de celebração, mas, em última análise, a menos que estejam associados a um nível de significado mais abrangente, tendem ao afetado, ao emocional e ao efêmero. Nas ordens política e jurídica, jamais conseguimos abandonar a invocação das dimensões mais sublimes do universo para testemunhar a verdade do que dizemos. Observamos isso especialmente em julgamentos, em cerimônias de posse e na tomada de posse em cargos públicos, em qualquer nível. Ainda nutrimos um temor e uma reverência instintivos, e até mesmo um certo receio, pelo mundo maior que sempre se encontra além do alcance de nosso controle humano.

Mesmo quando reconhecemos o mundo psíquico do ser humano, fazemos com que tudo se refira ao ser humano como a fonte última de significado e valor, embora esse modo de pensar tenha levado à catástrofe tanto para nós quanto para uma infinidade de outros seres. Contudo, em tempos recentes, começamos a reconhecer que o próprio universo é, na ordem fenomênica, o único modo de ser autorreferencial. Todos os outros modos de ser, incluindo o humano, em sua existência e em seu funcionamento, são referentes ao universo. Esse fato tem sido reconhecido ao longo dos séculos nos rituais das diversas tradições.

Desde os tempos paleolíticos, os humanos coordenam suas celebrações rituais com diversos momentos de transformação do mundo natural. Em última análise, o universo, em toda a sua vasta extensão espacial e sua sequência de transformações ao longo do tempo, era visto como uma única expressão festiva e multifacetada. Nenhuma outra explicação é possível para o mundo que nos cerca. Os pássaros voam, cantam e realizam seus rituais de acasalamento. As flores desabrocham. As chuvas nutrem todos os seres vivos. Cada um desses eventos no mundo natural é um poema, uma pintura, um drama, uma celebração.

O amanhecer e o pôr do sol são momentos místicos do ciclo diurno, momentos em que a dimensão numinosa do universo se revela com especial intimidade. Individualmente e em suas relações mútuas, esses são momentos em que o profundo significado da existência é vivenciado. Seja nas reuniões de povos indígenas em seus contextos tribais ou nos templos, catedrais e centros espirituais mais elaborados por toda a Terra, esses momentos são celebrados com rituais especiais. Da mesma forma, no ciclo anual, a primavera é celebrada como o tempo da renovação do ser humano em seu devido alinhamento com a ordem universal das coisas.

Foi proposto que nenhuma restauração efetiva de um modo viável de presença humana no planeta ocorrerá até que essa relação ritual do ser humano com a comunidade terrestre e com todo o funcionamento do universo seja restabelecida em larga escala. Até que isso aconteça, a alienação do ser humano persistirá, apesar dos esforços heróicos em prol de um modo mais benigno de atividade humana em relação à Terra. A fonte da confiança de Norden de que o presente não é um momento para desespero, mas para uma atividade esperançosa, ele encontra nos escritos de povos indígenas como James Welch, N. Scott Momaday, Leslie Silko e David Seals, todos autores com profundo conhecimento da relação ritual dos seres humanos com a ordem maior do universo.

Em consonância com autores como esses, gostaria de enfatizar aqui a necessidade de compreender o universo primordialmente como uma celebração. Identifico o ser humano como aquele em quem o universo celebra a si mesmo e suas origens numinosas em um modo especial de autoconsciência. O fato de já terem se desenvolvido formas espontâneas de rituais comunitários, como os Festivais de Todas as Espécies inaugurados por John Seed, promete um futuro com a compreensão, o poder, a grandeza estética e a plenitude emocional necessários para curar os danos já causados ​​ao planeta e moldar para a Terra um futuro viável, um futuro com as qualidades fascinantes necessárias para suportar as dificuldades que virão e para evocar a criatividade necessária.

Aqui, gostaria de sugerir que o trabalho que temos pela frente não é uma tarefa apenas nossa, mas de todo o planeta e de todos os seus componentes. Embora o dano causado seja imediatamente obra do ser humano, a cura não pode ser obra apenas do ser humano, assim como a doença de um órgão do corpo não pode ser curada apenas pelos esforços desse órgão. Cada membro do corpo deve contribuir com sua atividade para a cura. Portanto, agora todo o universo está envolvido na cura da Terra danificada, mais especialmente, é claro, as forças da Terra com a assistência da luz e do calor do Sol. Como a Terra é, em certo sentido, um planeta mágico na requintada presença de seus diversos membros uns para com os outros, esse movimento em direção ao futuro deve, de alguma forma, ser realizado de maneiras inefáveis ​​à mente humana. Podemos pensar em um futuro viável para o planeta menos como resultado de alguma descoberta científica ou como dependente de algum arranjo socioeconômico, e mais como participação em uma sinfonia ou como presença renovada na vasta liturgia cósmica. Essa percepção talvez tenha sido algo que eu vagamente experimentei naquela primeira visão dos lírios florescendo no prado do outro lado do riacho.

Thomas Berry
Dezembro de 1993

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COMMUNITY REFLECTIONS

2 PAST RESPONSES

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Virginia Reeves Nov 21, 2018

Such a thoughtful piece on the importance of integrating the wonders of nature in order to enhance human life. Thanks for sharing.

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Patrick Watters Nov 21, 2018

Much of my own story entwined here - Blue Oak woodlands, Magpie Creek and more. }:- ❤️ anonemoose monk