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O Seva Cafe Serve Generosidade Em Um prato.

O ambiente em Shantivan, um jardim na área de Malabar Hill, em Mumbai, no dia 17 de fevereiro, lembrava a ressaca do Dia dos Namorados. Cartazes com mensagens como "O amor é tudo o que precisamos" estavam amarrados em galhos de árvores e corações foram desenhados com giz por toda a área verde. Só que não se tratava de uma homenagem ao Cupido. A ocasião era o segundo almoço mensal oferecido pelo Seva Café.

O homem de óculos, vestido com kurta-pijama de khadi, era presença constante no local. Junto com outros voluntários, ele recebia os convidados e explicava o conceito do café: ali, os clientes não pagavam pela comida servida, podendo pagar o quanto quisessem. Ou, se preferirem, podiam simplesmente ir embora sem gastar um centavo.

Conheça Siddharth Sthalekar, que orquestrava essa "iniciativa de generosidade" com facilidade. Há cerca de três anos, ele era o co-chefe da mesa de negociação de derivativos e chefe de negociação algorítmica da Edelweiss Capital. Um dia típico para esse financista começava quando o gongo anunciava o início da Bolsa de Valores de Mumbai às 9h. Era nesse momento que ele aparecia na CNBC, vestido com uma camisa social impecável e gravata, e compartilhava sua experiência em acumulação de ações.

Em uma dessas manhãs de 2010, mesmo enquanto aconselhava investidores sobre quais ações comprar e vender, Sthelekar tinha um leve sorriso no rosto. Tanto que o cinegrafista lhe perguntou o que estava acontecendo. Mal ele podia explicar, naquele momento, que a decisão que tomara — de jogar tudo fora — iluminara seu semblante impassível naquela manhã.

Há algum tempo, o jovem de 31 anos, natural de Mumbai, vinha considerando largar seu emprego confortável para explorar se existia uma alternativa à lógica de acumulação que parecia impulsionar as pessoas no mundo corporativo. Quando finalmente decidiu arriscar, partiu para viajar pela Índia com sua esposa, Lahar, designer de interiores freelancer formada pelo Centro de Planejamento e Tecnologia Ambiental (CEPT) em Ahmedabad. Ao longo dos seis meses seguintes, enquanto visitavam diversas organizações sem fins lucrativos, eles se depararam com o conceito de economia da dádiva, onde bens e serviços são oferecidos sem qualquer contrapartida formal. Esse princípio se tornou a base do Moved by Love, uma incubadora no Gandhi Ashram em Ahmedabad, que desenvolve diversos projetos.

Um desses projetos, o Seva Café, estava inativo. Sthalekar, formado pelo IIM Ahmedabad, e sua esposa se tornaram seus principais voluntários e ajudaram a reabri-lo em setembro de 2011. O Seva Café pratica a doação, a antítese da acumulação. No café, voluntários cozinham e servem refeições todas as semanas, de quinta a domingo, gratuitamente.

Qual a principal conclusão de Sthalekar a partir do experimento? A prova de que os clientes mantiveram o café funcionando pagando mesmo quando poderiam ter ficado sem pagar. Que existem pessoas suficientes que não são governadas pela ganância — algo que ele pretendia testar desde o início.

No entanto, Sthalekar admite que a transição de sua mentalidade, da economia de mercado para a economia da confiança, não ocorreu da noite para o dia. "Inicialmente, eu costumava atribuir preços aos clientes assim que entravam no café", diz ele. Isso está em sintonia com a lógica da maximização do lucro ensinada nas escolas de negócios e praticada no mundo corporativo. Assim, Sthalekar frequentemente passava mais tempo à mesa de um potencial cliente de 3.000 dólares do que à mesa de um dono de barraca de chá, que, em sua percepção, era um cliente de 100 dólares. Então, seus "nobres amigos", incluindo sua esposa e outros voluntários, intervieram e apontaram a falha em sua abordagem, levando a uma correção de rumo.

No entanto, manter o café aberto para sempre não é o objetivo deste empreendedor. Na verdade, é justamente o contrário. Sthalekar afirma que o objetivo final deste projeto de economia da dádiva é fechá-lo. "Se o objetivo fosse manter o café aberto para sempre, teríamos feito uma apresentação à Fundação Bill Gates e solicitado uma doação."

A ideia, segundo ele, é confiar na premissa de que todo indivíduo, independentemente de sua condição econômica, pode ser generoso. O Seva Café oferece um espaço para que as pessoas pratiquem a generosidade, reconhecendo a doação altruísta dos voluntários. Mas, a longo prazo, Sthalekar espera que as pessoas desenvolvam o hábito de serem generosas mesmo fora do café — em todos os ambientes e circunstâncias. Quando isso acontecer, Sthalekar trancará as portas do Seva Café e colocará a placa "Missão Cumprida". "Quando houver generosidade suficiente no mundo, não haverá mais necessidade do café", afirma.

Embora Sthalekar não saiba quando isso acontecerá, ele se diz otimista, pois está entrando em contato com cada vez mais pessoas generosas. A outra situação em que o café fecharia, segundo ele, seria a falta de apoio de voluntários e/ou clientes. Isso não acontece há sete anos, mesmo antes de ele se juntar ao projeto.

No início, Sthalekar confessa que não conseguia compreender a motivação por trás dos projetos de economia da dádiva. Dado seu histórico, isso representava um enorme desvio do objetivo de multiplicar os lucros. Ele relembra que, quando trabalhava na Edelweiss, costumava entreter clientes com jantares luxuosos e bebidas alcoólicas em hotéis cinco estrelas para conseguir os melhores negócios. Ele não nega que apreciava a vida de luxo e o trabalho em si, mas situações como essas o fizeram questionar a moralidade por trás de sua atividade. "A contradição de usar meu cartão corporativo para comprar uma garrafa cara de champanhe quando eu sabia que havia pessoas passando fome nas ruas não estava de acordo com meus valores", afirma.

Isso gerou uma luta constante em sua consciência. Por um lado, ele ostentava a expressão severa esperada de um financista. Mas a constatação de que a eficiência proporcionada pelo dinheiro é distorcida o aproximou cada vez mais da decisão de seguir em frente. "Estava fervilhando dentro de mim", diz ele. Encontrou apoio moral em um lugar inesperado — seu chefe na Edelweiss. Quando lhe contou que iria se demitir, seu chefe, aparentemente capitalista, revelou um desejo secreto que acalentava: construir um ashram para idosos. Isso reafirmou sua convicção de que as pessoas são generosas por natureza, mas agem de acordo com o contexto em que estão inseridas.

Há dias em que ele duvida das escolhas que fez. "Em alguns dias, penso: 'O que estou fazendo aqui, viajando de trem enquanto meu amigo tem uma BMW?'", diz ele. No entanto, sua experiência de viver da generosidade das pessoas lhe confirma que é possível se sustentar dando. "O teste decisivo dessa experiência é que, se eu gerar valor para a sociedade, a sociedade me apoiará", afirma.

Embora o sonho final de Sthalekar seja fechar o café, por enquanto, ele quer abrir mais Seva Cafés por todo o país. O café acontece uma vez por mês em Pune e Bangalore. Em janeiro, ele decidiu tentar a sorte em Mumbai. Estava apreensivo, sem saber como a capital financeira reagiria a uma empreitada completamente não material. “Decidimos que seria um experimento único. Mas, como a resposta foi impressionante, servimos Mumbai também em fevereiro e planejamos realizar outro encontro no final de março”, diz ele.

Em ambas as ocasiões, o Seva Café serviu cerca de 100 convidados de origens diversas — de profissionais a crianças de favelas. Embora a expectativa fosse de atender entre 60 e 70 pessoas, a participação de mais de uma dúzia de voluntários da cidade foi um bônus e contribuiu para ampliar ainda mais a experiência.

Para Sthalekar, porém, abrir mais cafés é apenas um meio para um fim: o dia em que as pessoas farão da generosidade um estilo de vida e esses espaços se tornarão redundantes. É difícil acreditar que as imagens de Sthalekar que o Google justapõe sejam da mesma pessoa: uma vestida com um kurta de khadi folgado, ostentando uma barba francesa e um sorriso sincero; a outra, uma foto dele no programa da CNBC. Pergunte a ele e ele lhe dirá que talvez não sejam a mesma pessoa. Hoje, se Siddarth Sthalekar aparecesse no programa da CNBC, aconselharia os investidores a doar todas as suas ações.

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