Qual será o seu papel na construção de um mundo melhor?
Há alguns anos, bem antes da pandemia e do aumento dos índices de ansiedade e depressão entre os jovens, fui convidado a falar com alunos do 5º e 6º ano de uma escola em Connecticut. Perguntei a eles quais consideravam os maiores problemas do mundo e anotei suas respostas em um quadro branco até preenchê-lo. Em seguida, pedi que levantassem a mão se achassem que poderíamos resolver os problemas que haviam listado. Das quarenta e cinco crianças, apenas cinco levantaram a mão.
Esse foi o momento mais impactante da minha carreira de quase trinta anos como educadora humanitária — alguém que ensina sobre as questões interligadas de direitos humanos, sustentabilidade ambiental e proteção animal. Pensei comigo mesma: se essas crianças não conseguem nem imaginar a gente resolvendo os problemas que elas mencionaram, o que as motivará a tentar fazer a diferença?
Eu sabia que precisava fazer algo para restaurar a esperança deles, então pedi aos alunos que fechassem os olhos e se imaginassem sentados em um banco de parque em um belo dia, ao final de uma vida longa e bem vivida. Descrevi a cena: o ar e os cursos d'água ao redor estavam limpos. As espécies estavam se recuperando da beira da extinção. Não havia guerra há anos. Ninguém ia dormir com fome. Havíamos aprendido a tratar uns aos outros e os outros animais com respeito e compaixão.
Então, pedi que imaginassem uma criança se aproximando e sentando-se com eles no banco do parque. Contei que a criança estava estudando história na escola e aprendendo sobre tempos sombrios, e que tinha várias perguntas sobre como as coisas tinham melhorado tanto. Então, pedi que imaginassem a criança fazendo esta última pergunta:
"Qual foi o seu papel na construção deste mundo melhor?"
Deixei que respondessem à criança em suas mentes antes de lhes pedir — ainda de olhos fechados — que levantassem as mãos se agora conseguiam nos imaginar resolvendo os problemas que listaram no quadro branco. Desta vez, quarenta mãos se ergueram. Visualizar um mundo pacífico e saudável e saber que eles e as outras crianças na sala teriam um papel na criação desse futuro foi o suficiente para restaurar a esperança deles.

Alguns anos depois, quando estive em Guadalajara, no México, para palestrar em uma conferência, fui convidado a conversar com alguns alunos do quinto ano da escola que sediava o evento. Lembrando-me da vez em que falei com os alunos em Connecticut, pedi a essas crianças que levantassem a mão se achassem que poderíamos resolver os problemas do mundo. Dessa vez, todas as mãos se ergueram.
O que havia de diferente? A professora vinha ensinando-lhes — de maneira adequada à idade — sobre o que estava acontecendo em nosso planeta, especificamente com o meio ambiente, e os envolvia — também de maneira apropriada para a idade — na resolução de problemas ambientais. A escola havia instalado painéis solares, criado um sistema de compostagem para os resíduos alimentares e utilizado galões de água para reabastecer recipientes reutilizáveis em vez de usar garrafas de água descartáveis. Eles sabiam que os problemas podiam ser resolvidos porque já os estavam resolvendo. Estavam aprendendo a ser solucionadores.
Como todos nós podemos nos tornar solucionadores!
Não são apenas as crianças nas escolas que devem aprender a ser solucionadoras. Todos nós precisamos aprender a identificar sistemas injustos, insustentáveis e desumanos e transformá-los para que façam o máximo de bem e o mínimo de mal às pessoas, aos animais e aos ecossistemas que sustentam a vida. Para sermos claros, solucionadores não são o mesmo que solucionadores de problemas (e é por isso que o termo pode ser útil). Engenheiros podem resolver o problema de explodir uma montanha para extrair carvão, mas isso não os torna solucionadores. Implícito na definição de solucionador está o imperativo de considerar os impactos de nossas soluções em toda a vida e de nos esforçarmos para evitar causar danos não intencionais. Solucionadores também não são o mesmo que humanitários. Os humanitários aliviam o sofrimento e trabalham para mitigar os danos, o que é um esforço profundamente nobre. Os solucionadores levam o humanitarismo um passo adiante, abordando as causas do sofrimento e do dano para que não persistam.
Os solucionadores partem do princípio de que um mundo melhor é possível e que, por meio da colaboração, mesmo em meio a divisões aparentemente intransponíveis, podemos resolver os problemas que enfrentamos. Em seguida, empregam um processo de:
1. Identificar o problema específico que desejam abordar.
2. Investigar suas causas profundas e sistêmicas.
3. Inovar numa solução que tenha o mínimo (ou nenhum) de consequências negativas não intencionais para as pessoas, os animais e os ecossistemas.
4. Implementar a solução e avaliá-la para realizar melhorias.
Esse processo de quatro fases parece simples e direto, mas exige pesquisa aprofundada; o desenvolvimento do pensamento crítico, sistêmico, estratégico e criativo; um compromisso com o aprendizado a partir de uma variedade de partes interessadas e a consideração de múltiplas perspectivas; e humildade para que as soluções se tornem cada vez mais eficazes ao longo do tempo.
Partindo do princípio de que os problemas podem ser resolvidos, uma mentalidade voltada para soluções pode ser um antídoto para o pensamento binário que nos coloca uns contra os outros. Frequentemente, somos confrontados com visões "opostas" sobre diversos assuntos. Os conflitos são amplificados pela mídia e pelos políticos, e os problemas subjacentes, sobre os quais a maioria de nós consegue encontrar alguns, senão muitos, pontos de concordância, ficam obscurecidos por argumentos que nos impedem de identificar e abordar as causas profundas e/ou sistêmicas dos problemas.
Tomar partido é algo fácil e talvez natural para nós, mas ao cultivarmos o pensamento voltado para soluções, descobrimos que construir pontes não é tão difícil. E ao embarcarmos nesse esforço para abordar colaborativamente os desafios que enfrentamos, compreenderemos — assim como aqueles alunos da quinta série no México compreenderam — que nossos problemas são perfeitamente solucionáveis com a mentalidade, as habilidades, a dedicação e a base ética corretas.
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